O grouchismo – por Antonio Candido

serrote #2, julho 2009

O grouchismo

por ANTONIO CANDIDO

Redigido por um rapaz de 23 anos e publicado no terceiro número da revista Clima, em agosto de 1941, o manifesto “O grouchismo” é um exemplo precoce da espécie de galhofa gentil e sutil que marcaria a pessoa e a carreira de seu autor, Antonio Candido, ao mesmo tempo que dá ideia dos muitos elementos fundidos no perfil de sua geração. Nesse breve texto, confluem o entusiasmo pela arte cinematográfica, o humor modernista de um Oswald de Andrade, a política de esquerda (com direito a paródia de seu gênero mais clássico, o manifesto) e as ciências sociais, que se insinuam elipticamente em uma expressão como “a atividade em toda sua plenitude”, plausível num manual de antropologia. “O grouchismo” não é, de resto, a única amostra dessa mistura. Antonio Candido se esmeraria em manter correspondências paródicas com seus pares Décio de Almeida Prado e Sérgio Buarque de Holanda, em pastiches de inglês e de italiano – numa dessas cartas, aliás, voltará a falar de cinema, referindo-se a Hollywood como “il Sacro Bosco”. “O grouchismo” fez lá sua escola. Como o próprio Antonio Candido recordou, num depoimento de 1974, o grupo de Clima correspondia-se com um grupo de Fortaleza que mais tarde editaria a revista Clã – e nesta, em dado momento, certo Antônio Girão Barroso publicou o “Segundo manifesto grouchista”.

O nosso tempo está cheio de credos novos. Entre os seus inumeráveis pre­gadores, entretanto, poucos têm a profundidade e a inspiração de Groucho Marx. Por isto é que o grouchismo aí está, a conquistar adeptos dia a dia, numa evidente demonstração de vitalidade. A força do seu criador vem menos das prédicas que da ação. Groucho não tem um corpo de dou­trina organizado, nem tampouco o gosto da parábola. É agindo que dá o exemplo e arrasta os adeptos. Só usa da palavra como acompanhamento obediente das atitudes, porque, segundo ele, a ação é o princípio e o fim de tudo – concordando plenamente com a corrigenda do Doutor Fausto ao Evangelho de São João. Relegando, pois, o verbo para um plano secun­dário, Groucho desvenda a atividade em toda a sua plenitude, e é esta riqueza de realizações que dá um cunho tão convincente ao seu credo. É que ele compreendeu, melhor do que ninguém, que a crítica ao precon­ceito, assim como o estabelecimento de uma nova base para a conduta, não podem estar presos à justificação doutrinária – retórica, maçante e ineficiente. Compreendeu, além disto, que não pode haver fases distintas na transformação; que não se deve destruir para construir em seguida. O mesmo ritmo deve compreender no seu embalo a destruição e a recons­trução. Quando o tabu é derrubado, já deve estar nascendo de suas cinzas o novo tabuzinho, pronto e reluzente. É esta a sua profunda originalidade e a sua profunda divergência com os outros heróis deste século. Wladimir Ilitch, por exemplo, é o destruidor que espera tudo ruir para experimentar uma nova solução. O professor Freud é mais grouchiano, pois propõe ao mesmo tempo que depõe; mas é um grouchismo interior, com repercussões lentas e incertas na conduta imediata. Além disto, usa a análise, o que é um princípio antigrouchiano por excelência. Maurice Chevalier – desde então, nem falemos! É um gaiato que se limita à análise, à crítica — embora de um modo profundo e certo. Isto tudo me convence de que só em Groucho Marx existe a perfeita solução para os males individuais e coletivos. Falo como crente, é verdade, o que não impede a existência de razões em que basear esta fé. Se o leitor não teve ainda oportunidade de se pôr em contato com algum evangelista do grouchismo, o melhor é que vá diretamente às fon­tes, às grandes fontes, para se inteirar da sua essência. Refiro-me a Uma noite na ópera e Irmãos Marx vão ao circo. Aí verá todo o sistema em anda­mento, e poderá constatar que Groucho baseia a sua nova moral em dois princípios fundamentais:

otimismo criador

rejeição em bloco do convencional

Se me pedirem um exemplo que esclareça estes princípios, não saberia indicar nenhum melhor do que a cena da cabine em Uma noite na ópera. Nela, com efeito, os dois elementos básicos do grouchismo se fundem numa síntese perfeita. Senão, vejamos: encarapitado no alto de uma mala, que um carregador empurra no carrinho, Groucho vem vindo pelos corredores do navio. Canta a “Bella figlia dell’amore”, do célebre quarteto do Rigoletto, entremeando observações cômicas aos passageiros por cujos aposentos passa. Chegado ao seu, um cubículo onde a mala mal cabe, abre-a, liber­tando Chico e Harpo, que lá estavam escondidos. O steward bate à porta: Groucho fá-lo entrar, assim como à arrumadeira, a dois eletricistas, a um garçom que traz o lanche, à manicura, a quem entrega as mãos, risonho – e a não sei quantos mais. O cubículo regurgita de gente, que procura fazer a sua tarefa, e que não se sabe como coube ali dentro. Ora, aí é que está o ponto: coube porque Groucho quis que coubesse. Sem a perplexidade sub­missa de Buster Keaton, ou a resignação encolhida de Carlitos, foi acolhendo todo aquele povo, com um sorridente otimismo e um desafio soberbo ao espaço – que ele viola com a naturalidade tranquila dos grandes ousadores. Harpo, que é um profundo esteta, entrega-se a mais desesperada das ale­grias diante daquele espetáculo único — enquanto Groucho, sereno, tagarela, faz as unhas e emite sentenças na cabine em que um mal cabe e em que ele fez caber um pandemonium de 20.

Escolhi este episódio, de preferência a outro, porque nele a rejeição das convenções não se limita ao aspecto humano, social (como quando Groucho irrompe no boudoir de Suzanna Dukesbury, em Irmãos Marx vão ao circo, e, jogando ao ar o chapéu e a pasta, passa sem cerimônia por cima dela – que nunca o viu mais gordo — e lança a invocação: “Oh! Hildegarde, Hildegarde!”), mas, ultrapassando esses limites, ataca o impossível, e despreza as próprias contingências físicas.

Ora, um homem como este, que consegue para tudo o coroamento de inesquecíveis apoteoses finais (sobretudo aquela maravilhosa, de Uma noite na ópera, de um grandioso cômico raras vezes atingido), tem o direito de impor os seus métodos, que se cristalizaram na formação do grouchismo.

Ressalvadas as suas qualidades fortemente originais, não poderemos negar que o grouchismo se apoiou de certo modo no surrealismo de Harpo. Foi certamente nele que se inspirou Groucho para a valorização do absurdo, que liberta das aparências e é um dos seus títulos de glória. Criações como o portentoso sanduíche que Harpo faz em Uma noite na ópera (em cujo recheio se viam uma xícara, uma colher, uma ponta de charuto, um pedaço da aba de chapéu e um de gravata) não podem ter deixado de germinar fecundamente no cérebro reflexivo de Groucho. Devo esclarecer, aliás, que está havendo um movimento harpista. Não creio, entretanto, que ele vença. Todo surrealismo traz em si o perigo de uma fuga ao real, e o que interessa no momento são as atitudes de comportamento. É por isto que, transcen­dendo-o e criando valores de vida e de ação, encheu-se de glória eterna o grande homem dos óculos sem lentes e bigode escandalosamente pintado.

ANTONIO CANDIDO é Antonio Candido.

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