Expresso Deville – por Guilherme Freitas

Expresso Deville

por GUILHERME FREITAS

Convidado da Flip, o escritor francês Patrick Deville participa de debate no lançamento da serrote 26 no IMS Rio, dia 1º de agosto, às 20h

É bom estar com o passaporte em dia para embarcar em um livro de Patrick Deville. Em obras como Viva! e Peste e cólera (editora 34), o escritor francês conduz o leitor em périplos vertiginosos pelo mundo – da Rússia ao México, da França ao Vietnã, do Congo ao Camboja. O público brasileiro terá a chance de acompanhar o percurso da literatura de Deville na Festa Literária Internacional de Paraty. Depois da Flip, Deville faz uma parada no IMS-Rio para o lançamento da serrote 26, dia 1º de agosto, terça-feira, às 20h. A revista traz “Expresso transcaucasiano”, narrativa inspirada numa expedição pela antiga União Soviética pouco depois da queda do regime comunista. A conversa com Deville terá tradução simultânea e a entrada é franca.

As viagens são uma das matérias-primas para o ciclo de “romances sem ficção” que Patrick Deville vem publicando com sucesso crescente desde a década passada. Nesses livros, que misturam técnicas literárias, pesquisa histórica e relato pessoal, ele investiga as transformações políticas, sociais e culturais do mundo desde meados do século XIX até o presente. Para isso, percorre o globo no rastro dos vestígios deixados por protagonistas e coadjuvantes da História.

Viva! tem como fio condutor os últimos anos do revolucionário russo Leon Trótski, do exílio no México, no final dos anos 1930, até seu assassinato, em 1940. Mas a narrativa se expande para retratar um conjunto de artistas e rebeldes que viveram no país latino-americano naquele momento, como Frida Kahlo, Diego Rivera, André Breton, B. Traven, Vladimir Maiakóvski e Malcolm Lowry. Este último é o outro grande protagonista do livro, que acompanha sua atribulada jornada de mais de uma década para escrever a obra-prima À sombra do vulcão, ambientada no México.

Deville morou no México enquanto escrevia Viva! e se incluiu no livro como o personagem de um pesquisador que tenta compreender as trajetórias confusas e trágicas das figuras históricas que passaram por ali décadas antes. As vidas paralelas de Trótski e Lowry, que jamais chegaram a se encontrar, são retratadas como símbolos da ideia de revolução na política e nas artes. “O que Lowry imagina é uma vez mais revolucionar a arte da prosa poética, um sonho tão grande, magnífico e inacessível quanto o da revolução permanente de Trótski”, escreve Deville.

Deville também se inclui em Peste e cólera, dessa vez como uma figura espectral, “o fantasma do futuro”, que persegue as pistas do protagonista do livro, o médico e explorador suíço Alexandre Yersin, um dos primeiros discípulos de Louis Pasteur e descobridor da vacina contra a peste bubônica. Na virada do século XIX para o XX, Yersin atravessou Europa, África e Ásia em navios cargueiros, expedições coloniais e missões científicas. Percorrendo os lugares por onde ele passou, o “fantasma do futuro” procura dar sentido aos fragmentos dessa biografia.

Assim como as vidas de Trótski e Lowry em Viva!, a trajetória de Yersin ilumina a história de seu tempo em Peste e cólera. Deville compara os avanços da ciência em fins do século XIX com as transformações da literatura da época: o microscópio e a seringa são tão “absolutamente modernos” quanto o verso livre de Rimbaud e Baudelaire, sugere o escritor. O percurso de Yersin – da fé na razão e na ciência ao desgosto com as duas guerras mundiais – reflete a passagem de um século “que sonhava com o progresso sem fim” para o brutal século XX, “o das barbáries sem fim”.

Publicado na serrote 26, “Expresso transcaucasiano” é parte de um livro inédito no Brasil, “A tentação das armas de fogo”. O texto descreve uma viagem por Azerbaijão e Geórgia no fim da década de 1990. O itinerário é ditado pelas paixões e desilusões de poetas russos que passaram pela região ao longo dos séculos XIX e XX, como Púchkin, Liérmontov e Iessiênin. Mas o pano de fundo é mais amplo: das memórias das primeiras greves no Cáucaso, organizadas por um jovem Stálin, à descrição da terra arrasada nas antigas repúblicas soviéticas, Deville traça a ascensão e a derrocada da utopia comunista.

Em entrevistas à imprensa brasileira, Patrick Deville tem dito que pretende ambientar um dos próximos livros no Brasil. Resta esperar para descobrir que personagens e convulsões da história nacional despertarão seu interesse, e que cenários merecerão uma escala na obra de um escritor que parece movido pelo princípio enunciado ao fim de “Expresso transcaucasiano”: “Podemos alimentar sonhos do norte e sonhos do sul, do oeste e do leste. O inevitável, sem dúvida, é não querer estar onde estamos”.

Lançamento da serrote 26 e conversa com Patrick Deville
Data: 1 de agosto, terça-feira
Horário: 20h
Local: IMS Rio – Rua Marquês de São Vicente, 476 – Gávea
Evento gratuito, sujeito à lotação da sala
Tel.: (21) 3284-7400

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