“Compreende?”

serrote #6, novembro 2010

“Compreende?”

ARMANDO FREITAS FILHO

 

João Cabral “falava pelos cotovelos”. Essa expressão cai como uma luva se entendida não metaforicamente, mas aferrada à imagem, tal e qual, “sem plumas”. Semelhante ao rio inte­rior, escrito e escarrado, jamais copioso, com a sua água na conta certa, que vai a passo, lajeada, pari passo, com a outra água do rio externo, passando no pensamento. Pois o que eles, o rio e o homem, dizem, sai em linha reta, sem floreios, e vai até o fim do fôlego, e em vez de deter-se, vira a esquina súbito, citadino – e continua o ditado, sempre em frente. Daí os cotovelos de suas sentenças, iguais ao traçado à régua dos seus versos, só admitindo ângulos bem medidos no firma­mento, sem a incalculável nuvem indecisa: e mesmo se ela ousar, céu afora, João só vê o sol de acetilsalicílico, não dando atenção à sua possível trovoada, ao seu provável barulho de chuva, à sua sombra, mesmo que de passagem, porque teme – se parar a fim de esclarecer e cuidar para que nada saia do curso, pingue e derrame – ter que cortar o rio, submeter-se à sombra, interromper o que é tão imperativo, claro e firme, isento, na superfície, de escuro e umidade. Porque teme, enfim, esquecer-se, ou deixar que enguice e enferruje o dis­curso-escudo, há muito decorado, com o qual se defende não apenas do interlocutor buscando entrar na área interdita, até para o pessoal mais íntimo, como também de algo contradi­tório – assim como de si mesmo, extremamente. De algo que o salve da fuga do seu destino, por opção fabricado, de sua vida-ultimato. De algo que o desarrume e duvide, o tire da linha, onde o vento não sopra, onde Drummond não passa.

 

Compreendo.

João Cabral “falava pelos cotovelos”, metaforicamente, tam­bém. Longe do rigor da composição, jamais confundido com a rigidez, era um homem idiossincrático, opinativo, engra­çado, à Buster Keaton. Quando topei, pela primeira vez, com alguns poemas seus, em 1953, na Antologia da poesia brasileira moderna, tive uma sensação ambígua: se ele, naquela pequena mostra, passava em revista a dicção do modernismo, eu não podia abrir mão da mão despenteada modernista, nem queria largar essa outra, nova em folha, que se penteava tão impecavelmente, como aparecia no retrato da antologia citada. Três anos mais tarde, em Duas águas, livro onde reu­niu sua poesia até aquela data, pude beber em fontes dife­rentes: na que brotava em silêncio e na que jorrava em voz alta. O poeta, aparentemente, inflexível, tinha pelo menos dois ramais distintos. Essa constatação fez com que os bons leitores da minha geração chegassem ao seu manancial sem se sacrificar na leitura menos imaginativa, mais ocorrente e reducionista, pois não esterilizavam seu verso fluvial, que não rejeitava impurezas, igual ao Capibaribe, em nome de uma “secura” higienizada, que nada tinha a ver com a sua visceralidade de origem. Não caímos na armadilha simpli­ficadora de sua recepção: a de que escrevia sem as plumas das nuvens. A ameaça delas sempre esteve no céu limpo à força. Sua poética é feita desse duelo, entre sol e sombra, e seu autor, por essa razão, não podia se seguir ou ser seguido, ao pé da letra, já que era despenteado por dentro. Por isso mesmo amou, nunca de maneira resignada, mas com fúria, Drummond até o fim.

 

ARMANDO FREITAS FILHO (19 40) é um dos mais importantes poetas contem­porâneos. Nascido no Rio de Janeiro, foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa e assessor da Funarte. Em 2003, a Nova Fronteira publicou Máquina de escrever, uma edição de sua poesia reunida e revista ao longo de 40 anos de carreira. Sua extensa obra inclui 3×4, vencedor do prêmio Jabuti em 19 8 6, e Fio terra, que recebeu o prêmio Alphonsus de Guimaraens em 2000. Seu título mais recente – Lar, (Companhia das Letras) – foi finalista do Jabuti.

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