Aquarela

serrote #5, julho 2010

Robert Walser (1878-1956) é o escritor suíço-alemão que permaneceu desconhecido durante quase toda sua vida, mas cujo prestígio tem aumentado consideravelmente nos tempos atuais. Um de seus raros e mais atentos leitores era Franz Kafka, cuja ficção foi bastante influenciada por ele. A atividade de Walser foi intensa na mocidade, mas depois o artista entrou em apatia e depressão, terminando a vida num sanatório para doentes mentais. Em sua prosa limpa, poética e extremamente criativa, destacam-se as novelas e as narrativas breves, que sempre parecem “dizer mais nas entrelinhas do que nas linhas”, segundo Otto Maria Carpeaux. Sua obra capital é o romance Jakob von Gunten, em que é contada a história de um educandário misterioso, no qual os meninos são ensinados a se tornar criados, não se sabe do quê, uma vez que a direção do instituto, do qual depende o futuro dos alunos, não existe. A semelhança com os romances de Kafka, principalmente com O castelo, é mais que evidente.

Aquarela

ROBERT WALSER

 

Faça alguma coisa, fale de alguma coisa.

Brutus, você está dormindo! Acorde, acorde!

O que eu vi hoje? Algumas aquarelas!

Posso falar dessas aquarelas?

Claro! Vá em frente! Por que não?

O aquarelista talvez seja o folhetinista no reino da pintura.

Você gosta destas aquarelas, meu caro?

Sim, gosto delas. Em certo sentido, gosto até demais.

Em que sentido?

No sentido de que elas possuem algo apetitoso e concreto.

O aquarelista vai aquarelando à medida que apela ao juízo saudável do ser humano. É como se pintasse com alegria, documentando, assim, uma razão sadia e o sentido daquilo que existe.

De certo modo, ele diz ao espectador: “Pinto aquarelas porque quero ensiná-lo a amar aquilo que nos cerca”.

Ele então apresenta aldeias de montanha, com a igreja numa rua estreita e, bem perto dela, muralhas de rochas que sobem ao céu, sobre as quais repousam as nuvens.

Seus pequenos quadros falam; mas as cores, em tudo o que se fala nessa língua, não dizem mais do que devem expressar, ou seja, o justo e necessário.

Aí ele me mostra, por exemplo, uma estrada, em cujo cerne e essência eu acredito instantaneamente.

Quando um pintor me ensina a crer naquilo que pinta, é porque ele pinta bem. Seus buquês de flores retêm o que há de essencial nos buquês de flores, suas casas, o que há de essencial nas casas, os tetos, os alpendres, os suportes etc. são como devem ser, eles têm uma existência própria, acre­dita-se neles.

As montanhas têm o tamanho certo. Também nas mon­tanhas pintadas a aquarela a pessoa crê sem demora.

Eu poderia fazer um relato de quilômetros de extensão, mas acho que vou resumir.

Ali está, por exemplo, um caminho com uma sebe, um pouco de grama, um pedaço de céu.

Em Berlim, eu fazia a barba com um barbeiro que tinha o hábito de dizer: “Não tem aroma no panorama”.1 Toda vez que costumava soltar o ditado no ar, era como alguém que dispersasse as cinzas no vento.

Minhas aquarelas também têm algo lançado de leve ao ar.

Então eu digo: elas são minhas! Mas elas não me per­tencem. Só pertencem ao pintor até o momento em que alguém as compra dele.

A você, caríssimo, cabe o belo dever de comprá-las dele, isto é: você não está comprometido a fazê-lo. Digo isso por dizer.

Afirmo, portanto, que vi algumas simpáticas e inteli­gentes aquarelas que possuem no próprio ser eloquência, e não quero dizer com isso, outra vez, que acredito na capacidade do pintor de produzir imagens.

Enquanto isso meu desejo é que ele encontre compra­dores.

Ele também pinta borboletas.

Seja como for, a natureza o enleva; ele pinta com espí­rito e engenho, isto é, ele não pinta, mas o pintor também não é lúdico como o poeta?

Aquarelas são como pequenas peças para piano; por exemplo, sonetos e sonatas.

Já estou ouvindo uma em minha mente.

Sou tão musical que posso renunciar totalmente a ouvir música.

Ela continua ressoando em mim, acredite no que digo. E não se esqueça de comprar, em meu nome, um pequeno quadro.

Peço-lhe encarecidamente que o faça.

O âmbito da arte é tão pesado e rico. As civilizações cantam, a humanidade, criança inocente, salta, respirando bem alto.

 

Tradução e nota introdutória de MODESTO CARONE

 

1. No original alemão: Im Himmel gibt’s keinen Kummel (literalmente: “no céu não há cominho”). A tradução do ditado rimado é, obviamente, apenas aproximativa. [N. do. T.]

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