Os Beatles são um pouco de tudo para todas as pessoas

Este ensaio integra a serrote #17.

Os Beatles são um pouco de tudo para toda as pessoas

ALEXANDRE EULÁLIO

Seymour Chwast, “The continuing story of Bungalow Bill”

Para a gente que se encontra há milênios longe da adolescência, e não tem mais paciência para essas coisas, são apenas os três patetas mais um quarto, e já é mais que suficiente, Santo Deus! Para o meninote entrando no trilho da dita adolescência, são o fino, na voz, na cabelama, na roupa, nas botas bacaninhas, nos filmes, nos discos então… Para o jovem sociólogo de óculos-tartaruga, as entradas aumentando, uns cinco fios brancos no topete erudito, eles constituem a suma sociológica de um tempo desgovernado: um caleidoscópio frenético de história em quadrinhos, gritaria em classe, cinema mudo em festa de aniversário, musical barato, comédia pastelão no Cineac, picadeiro de circo, programa de televisão, filme de aventura com xeque, maciste, cossaco e pirata. Danny Kaye somado a Jerry Lewis, e muito cabotinismo bem dosado – enfim, a máquina de fazer dólares, em perfeito funcionamento. Para a futura mamãe que vai, vela panda, por Barata Ribeiro afora, olhando as vitrinas, pensativa, representa a dúvida de se o próximo bebê vai pertencer a um tempo que nem esse, e a esperança indecisa de que não seja o neto de Drácula o ídolo do filhote dela, pois pelo jeito que a coisa vai…

O máximo do legal, crise de idade, retrato do tempo, o que virá daqui a dez anos – seja como for, o fato é que os Beatles existem, logo dão o que pensar. Como bambambans do histerismo coletivo da turminha teenager, eles representam coisa que não é brincadeira. À margem da minuciosa organização comercial que possuem, e que não perde a menor deixa para recolher royalties e mais taxas do menor suspiro que suspiram, eles têm lados positivos. Dentro da sua atmosfera absurda, no seu enfrentar corajoso do bom senso e do ridículo, há uma inegável passagem do cabotinismo ao lirismo, que só é cifrada para aqueles que se encontram de todo distantes do mundo fechado da adolescência. A sua fantasia apalhaçada liga-se com a tradição dos cômicos frenéticos, e dentro dela é evidente a reação contra o cotidiano banal. Dentro dessa reação é que toma sentido simbólico e quase mágico o pormenor grotesco que é santo-e-senha de um código secreto: as franjas rituais equivalem a uma auréola, e as botas de salto alteado, aos pés dos heróis.

Essa procura do excêntrico numa sociedade cada vez mais sem centro tem uma lógica própria. O tom escarninho e a estridência própria desse quarteto de morte propõe, ao adolescente indócil na pista, um mundo à margem, que o seu espírito de confraria secreta não pode dispensar. A paródia e o nonsense são peças fundamentais nessa crítica à sociedade dos adultos, estandardizada sem interesse, e que eles rejeitam de todo. Nesse sentido é bem claro o espírito do livro que um dos quatro, John Lennon, publicou no ano passado, com uns desenhos geniais: a paródia de textos célebres como A ilha do tesouro revezava-se com a sátira de textos jornalísticos, crônica social e comentário político, de um inesperado poder satírico. [1]

Estou certo de que Alfred Jarry saberia reconhecer esses discípulos heterodoxos, que expandiram, através dos mais eficientes processos da promoção comercial, um inconformismo patafísico visceral e irredutível como a própria adolescência. Não foi por acaso que El-Rei Ubu, esse super-herói do nosso tempo, possuidor de todas as virtudes da época – boçalidade, egoísmo, covardia –, nasceu da reação coletiva de ginasianos contra um professor tirânico. Revolta que Jarry manteve acesa, na sua arte grotesca e patética, durante toda a sua vida exemplar de peão da liberdade. Da mesma revolta da adolescência é que saem os Beatles armados com capacete de rugby e pluma de plástico, franja de débeis e botas de borra-botas, para investir o Jaguadarte. E quando algum dia se encontrarem em alguma esquina com o nosso pai Jarry, baterão no ombro dele chamando-o amigo velho de guerra: “Hi there, Alfreedom, dear old chap!”.



1 In his own write, lançado pela Macmillan & Scribner (Londres), em março de 1964, com 80 páginas. [N. O.]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *