Viagem à roda de uma dedicatória

Viagem à roda de uma dedicatória

por PAULO ROBERTO PIRES

 

 

Que misterio es una dedicatoria, una entrega de símbolos!
Jorge Luis Borges, La cifra

 

Em junho de 1978, Alexandre Eulalio deu de presente a Roberto Schwarz um exemplar de Prosa de ficção – de 1870 a 1920, o livro de Lucia Miguel Pereira que seria um dos volu­mes da História da literatura brasileira idealizada por Álvaro Lins e jamais realizada. Na folha de rosto, escreveu ao amigo:

 

Para o Roberto

este livro notável que, lido em 1950, ao mesmo tempo que o Coelho Neto, romancista, de Brito Broca, me mostrou que o que eu queria fazer mesmo era ensaio brasileiro.

com o abraço

do Alexandre

 

Com estas 30 palavras, excluídas a saudação ao desti­natário e a manifestação de afeto do remetente, Alexandre Eulalio escreveu um curioso microcapítulo da história do ensaio no Brasil. Episódio que pode ser lido literalmente à margem, num fac-símile escondido em meio a poemas, ensaios, resenhas e reportagens editados em 1993 na revista Remate de Males. A edição especial foi a forma de o departamento de teoria literária da Unicamp homenagear aquele que, ao morrer, em 1988, havia dedicado nove de seus 55 anos, os nove últimos, a ensinar naquela universidade – onde ingressou na condição de professor notório saber, ou seja, dispen­sado da formação superior regular.

À revista que revelou esta declaração íntima e despretensiosa, Maria Eugenia Boaventura e Carlos Augusto Calil, os organizadores, deram o título Alexandre Eulalio – Diletante. O epíteto é do próprio autor, que assim se denominou simulando um cartão de visita. Assumia com fina ironia, como se fosse profissão, médico ou advogado, um julgamento que muito rondou seu nome e nele muitas vezes foi colado. “Diletante” é, como sabemos, adjetivo com baixo teor de ambiguidade, pois diz menos da paixão do amador – que efetivamente traduz – do que insinua sobre a superficialidade e a ligeireza de seus múltiplos interesses, intelectuais e estéticos.

Mas, para quem declarou “ensaio brasileiro” como prática principal e meio de vida, “diletantismo” é mais honraria que demérito. Ou, depen­dendo do ponto de vista, um ônus inevitável. Poeta, jornalista, historiador, crítico de arte e literatura, cronista, cineasta e tradutor, Alexandre Eulalio tornou-se, essencialmente, o que grande parte dos intelectuais brasileiros só foi ou é como ramal auxiliar: ensaísta.

E o ensaísta nada mais é que um diletante profissional, curioso vocacio­nal que faz deste impulso modo de vida, elaborando seu variado interesse em texto bem cuidado, às vezes próximo do literário e sempre tendo no horizonte o convite de uma conversa com o leitor. Culto – e, no melhor dos casos, desprovido de arrogância –, passeia despreocupado entre as frontei­ras das disciplinas, prefere a dúvida à certeza e se realiza plenamente na forma breve, no tiro mais curto que um livro ou uma tese. E.B. White, um dos mestres do gênero, dizia ter orgulho de, na condição de ensaísta, ser um cidadão de segunda classe no mundo das letras. Vê-se que o preço da deriva é quase sempre alto e especialmente exorbitante numa vida inte­lectual que, como a brasileira, faz da especialização na pesquisa e do cul­tivo do jargão formas poderosas de distinção intelectual.

É da vocação de “ensaísta brasileiro”, plenamente realizada por Eulalio, ponto final de sua mensagem a Schwarz, que parte esta viagem em torno de uma dedicatória. Do que ela pode revelar dos dois e, através deles, da defi­nição do ensaísmo moderno no Brasil.

 

O recado dos nomes

O destino intelectual de Alexandre Eulalio é, em suas próprias palavras, decidido por Lucia Miguel Pereira, cuja obra escolhe, fisicamente até, para declarar a Schwarz sua admiração, e por Brito Broca, que o influenciou pelo que escreveu, mas também ou sobretudo pela convivência, amigos e colegas de trabalho que eram no Instituto Nacional do Livro. Mortos precocemente, ambos em acidentes trágicos – Lucia tinha acabado de fazer 58 anos quando o avião em que viajava caiu; Broca estava às vésperas dos 58 quando foi atropelado –, ambos ocupam, com o próprio Eulalio, lugares discretos e quase à margem no cânone ensaísticoem que Schwarztem hoje posição destacada.

Quando ganhou o livro de presente, Roberto Schwarz, nascido na Áus­tria em 1938, já era, ele sim, o perfil do intelectual que se consagraria como legítimo representante do “ensaio brasileiro”. Como seu amigo, tinha se aventurado em diversas frentes: poesia (Pássaro na gaveta, 1959, e Cora­ções veteranos, 1974), teatro (A lata de lixo da história, 1977) e tradução (Brecht, Georg Büchner, Marx e Adorno). Mas os alicerces de sua obra, desde sempre sólida, começavam a ser plantados com dois livros de ensaios: a coletânea A sereia e o desconfiado (1965), que trata de Mário de Andrade e Dostoiévski, Nathaniel Hawthorne e Clarice Lispector, e Ao vencedor as batatas (1977), tríptico temático que inaugura sua influente interpretação de Machado de Assis.

Pelo amplo espectro de interesses e a realização em linguagens diversas e temas variados, Schwarz poderia ser considerado tão diletante quanto o amigo – e seus dois ilustres antecessores. Mas a ele e a toda uma geração que a partir da década de 1960 elegeu o ensaio como plataforma, sobretudo na crítica literária, jamais se colou o rótulo do amadorismo. A carreira uni­versitária já autorizava suas falas e legitimava suas hipóteses, dando ao tal “ensaio brasileiro” um lugar peculiar na tradição do gênero. Lugar que fica mais claro voltando para um pouco antes de 1978 – ano em que Alexandre Eulaliopublicou seu único livro não póstumo, A aventura brasileira de Blaise Cendrars, narrativa de gênero indefinido que mescla análise, crônica, depoi­mentos e imagens para dar conta da convivência do poeta francês com os modernistas brasileiros.

 

Fair play intelectual

Ao prefaciar, em 1949, o volume Ensaístas ingleses, da coleção Clássicos Jackson, Lucia Miguel Pereira defendia que o ensaio é “antes atitude mental que propriamente gênero literário”. Apontava, assim, para sua formação e carreira, uma e outra fora dos trilhos institucionais ou científicos, mistura­das com a provisoriedade inerente ao jornalismo e, também, ignorando os limites de gênero literário. Além da sólida ensaística e das biografias – seu Machado de Assis é clássico na fortuna crítica do autor de Esaú e Jacó –, Lucia também publicou literatura infantil e romances que ela mesma reconhe­cia de importância menor.

“Filho tardio do Renascimento, a maior época do mundo ocidental, o ensaio representa, no plano literário, o mesmo impulso humanista e experimental de que resultaram a Reforma e o descobrimento da Amé­rica”, escreve Lucia, tomando o Novo Mundo como correlato metafórico dos horizontes que se abrem quando o “homem comum”, o não espe­cialista, põe-se a refletir sobre o mundo e a cultura numa “mistura de instinto com experiência”. Em ótima definição, ela define o ensaio como, antes de mais nada, fair play, “luta sem violência nem crispação” do inte­lectual empenhado em decodificar porções do mundo, da literatura e de si mesmo.

Participar ativamente do debate intelectual era, para uma mulher bra­sileira na década de 1930, um inequívoco posicionamento político que tem a independência intelectual como força motriz. Ainda mais sendo ela uma autodidata que, inicialmente ligada a um grupo de intelectuais cristãos (reunidos em torno da revista Ariel), torna-se divorcista convicta e termina casando, fora do país, com um homem mais velho e separado, Octávio Tar­quínio de Sousa – este, por sua vez, outro “diletante profissional”, célebre advogado de carreira e historiador vocacional, autor da História dos fun­dadores do Império do Brasil, conjunto de dez biografias das quais a mais importante é A vida de d. Pedro I.

Não foi só a Alexandre Eulalio, então com 18 anos, que encantou Prosa de ficção. “Existem algumas páginas que eu ousaria situar, sem nenhuma hesitação, entre as maiores que já produziu a crítica literária entre nós”, escreveu Sérgio Buarque de Holanda na Folha da Manhã, em 7 de junho de 1950. A resenha, entusiasmada, sublinha precisamente pontos que dizem respeito ao ensaio, praticado com brilhantismo pelo próprio Sérgio, que em 1936 publicara Raízes do Brasil.

O historiador destaca no livro a escrita que “não procura ser erudita e exaustiva, porém crítica e compreensiva”, “a atenção dedicada pela autora a romancistas e contistas menores” e, finalmente, as “ideias nítidas e des­pretensiosas” que formam um “esqueleto invisível”. Pois, como ele observa, “cada capítulo vem a ser uma constelação de ensaios”, método possível de marcar a diferença em relação aos historiadores que, em suas palavras, “só tinham olhos para os grandes feitos políticos e guerreiros, ou para os heróis que os encarnaram”.

Citando livremente Benedetto Croce e o E.M. Forster de Aspectos do romance, Lucia defende em Prosa de ficção que o “verdadeiro juízo sobre a obra de arte” deve partir de um ponto equidistante entre o historicismo e o esteticismo. Em sua formulação, trata-se de uma equação sempre variá­vel entre as condições em que a obra foi criada, as doutrinas estéticas e “um elemento subjetivo frequentemente esquecido, e contudo indispensável, o gosto”. Segundo esse ponto de vista, a obra em si determinaria a ênfase em um ou outro aspecto, sendo o crítico responsável pela dosagem certa de pesquisa e idiossincrasia, teoria e livre opinião – concepção certamente próxima do ensaísmo clássico e na qual o jovem Alexandre Eulalio enxer­gou o “ensaio brasileiro”.

 

A mão canhestra

Para que os personagens desta dedicatória estreitem ainda mais seus laços, é bom lembrar que foi Lucia Miguel Pereira quem indicou a Antonio Can­dido, seu primo, o nome de Brito Broca para o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. Naquele 1956, o jornal paulista começaria a publicar o caderno projetado por Candido, que levava à grande imprensa os princípios editoriais da Clima. A revista literária, publicada entre 1941 e 1944, defendia uma crítica menos impressionista e mais meditada teoricamente, resultado da formação, na Universidade de São Paulo, de seus fundadores – além de Candido, Decio de Almeida Prado (que ficaria à frente do Suplemento do Estadão), Gilda de Mello e Souza, Paulo Emílio Sales Gomes, Rui Coelho e Lourival Gomes Machado.

No projeto do Suplemento, Brito Broca poderia ser visto como char­moso anacronismo. Recomendou Candido que ele se encarregasse da seção “Letras Francesas” por sua longa relação com a literatura daquele país. A propósito, veio de um autor francês, André Billy, a ideia de “vida literária” que marcaria sua trajetória a partir de seu livro mais importante. Em Vida literária no Brasil – 1900, discreta obra-prima lançada no mesmo ano em que o Suplemento começou a circular, Broca consolidaria o misto de história, crônica e ensaio em que procurava mostrar práticas, valores e comportamentos em torno da literatura que, a seu ver, são tão importantes quanto as obras em si para compreender determinado autor ou momento.

Paulista de Guaratinguetá, José Brito Broca vivia no Rio de Janeiro desde 1937, escrevendo para jornais, traduzindo e tendo trabalhado um período como redator da José Olympio Editora. O “Coelho Neto, romancista”, ensaio que tanto impressionou o jovem Alexandre Eulalio, saiu pela pri­meira vez em 1941 na Revista do Brasil, então editada por Octávio Tarquínio.

Em 1954, aos 22 anos, Alexandre Eulalio conheceu Broca e, segundo lembrava, desde então passaram a manter um contato “quase diário”. Em 1957, já trabalhando como redator da Revista do Livro, conseguiu que Broca, então com 54 anos e já consagrado, fosse contratado pela publicação. A rela­ção de amizade e cumplicidade entre os dois resultou em um único texto a quatro mãos, “Os folhetins de Hop-Frog”, ensaio publicado no número 14 da revista (1959) sobre a obra de Tomás Alves – autor, naturalmente, menor e “diletante”, tão ao gosto da dupla.

Eulalio também tentava pôr ordem na produção dispersa e confusa de Broca, célebre pela desorganização pessoal. Sonhava com a edição de uma “obra reunida”, que efetivamente iniciou em 1979, com a publicação de Românticos, pré-românticos, ultrarromânticos: vida literária e romantismo brasileiro. Dois anos mais tarde, sairia Ensaios da mão canhestra, mas os demais volumes só seriam publicados pela Unicamp na década de 1990, com adaptações pontuais no projeto original.

No prefácio a Ensaios da mão canhestra – título dado por Eulalio, já veremos por quê –, Antonio Candido atenta para a singularidade de Broca, que a princípio e apressadamente poderia ser tomado como o perfeito antagonista da crítica praticada pelo próprio autor de Formação da literatura brasileira. Candido sustenta que Broca encarna um tipo “matizado” de cronista em que “a interpretação adere de modo indis­cernível à descrição: quando está descrevendo, enumerando, deta­lhando, o cronista está ao mesmo tempo sugerindo, desvendando e analisando”.

Considera-o não um “diletante” no sentido pejorativo, mas um “conhecedor”, no sentido brasileiro e francês, “um sabedor preciso e um apreciador requintado de biografia, história, edições, estilos, miu­dezas”. A eventual “omissão analítica” da qual Broca é frequentemente acusado, observa Candido, é largamente compensada por uma virtude nada desprezível e não por acaso fundamental para o ensaísmo: “poder ser inovador justamente nos terrenos pisados”.

Em raro depoimento sobre seu próprio trabalho crítico, Brito Broca explica como negociava suas convicções intelectuais com os ares do tempo em que viveu. “Sou visceralmente cético com relação à chamada critique des vivants”, afirma em entrevista concedida ao Jornal do Brasil e cuja data se perdeu. “Não obstante, é preciso que os escritores sejam criticados pelos seus contemporâneos, embora, segundo me parece, só a perspectiva histórica os coloque no verdadeiro lugar”.

Ruth Silver, a entrevistadora, era o pseudônimo usado pela jornalista Mary Ventura para escapar de perseguição política dentro do próprio jornal. A julgar por outras entrevistas com intelectuais feitas por ela para o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil – há uma, famosa, com Mário Faustino, reproduzida no volume De Anchieta aos concretos –, a conversa com Broca aconteceu no final dos anos 1950. Broca reconhe­cia a mudança pronunciada do ambiente intelectual – “de uns dez anos para cá compreendi a necessidade de especialização” –, mas advo­gava uma separação: o lugar da chamada “crítica universitária” é livro e revista; no jornal, cairia melhor a chamada “crítica impressionista”, demonizada pelas primeiras gerações de críticos em busca de parâme­tros menos movediços para a análise de obras literárias.

Sublinhando uma distinção bem clara entre informar e opinar – para ele é obrigação de um crítico dar conta de seus contemporâneos e divulgá-los ao leitor na mesma medida em que deve mergulhar no pas­sado e meditar para poder manifestar seu juízo sobre alguma obra ou autor –, Broca via no olhar histórico um terreno firme a percorrer: “Julguei ter encontrado na pesquisa o único caminho que me convinha”.

Em deliberada indecisão entre jornalismo e história, crítica de rodapé e impressionismo, seguia o crítico da “mão canhestra”, aquele título, um tanto derrisório, que Eulalio assim justificava: “Gostaria de haver captado um pouco da orgulhosa autoironia de Brito Broca, consciente por igual das limitações e do interesse daquilo que ia realizando, na circunstância brasileira dele, com vivacidade, argúcia e até mesmo algum ceticismo”.

 

Entomologia do homo brasiliensis

Em 15 de dezembro de 1978, seis meses portanto depois da dedicatória reveladora, Alexandre Eulalio volta a se dirigir a Roberto Schwarz, desta vez publicamente. Na revista Leia Livros, publica “Pai de família, mas des­confiado”, a pretexto do então recente lançamento de O pai de família e outros estudos, terceiro livro de ensaios do autor. Indiretamente, como convém, fala do livro para falar do ensaio, fala de Schwarz para falar de si mesmo.

Assim como em A sereia e o desconfiado, livro anterior de Schwarz ao qual o título da resenha também faz referência, trata-se de percurso variado formado pelo que Eulalio chama de “textos assimétricos”: um per­fil de Anatol Rosenfeld, estudos sobre O amanuense Belmiro e Três mulheres de três pppês, considerações sobre vanguarda, política e Kafka. O que não raro se reprova no ensaísmo como “ecletismo” ganha para o resenhista sentido preciso quando o conjunto é considerado como “revisão sem ceri­mônia de si mesmo dentro da pauta concreta do tempo – tal miscelânea na verdade indica, sem situação, um preciso itinerário que se completa pelos próprios descaminhos”.

Tratado como “um dos raros momentos realmente altos do ensaísmo interpretativo brasileiro”, o livro de Schwarz foge, segundo Eulalio, “ao campo específico da literatura” para aprofundar “o conhecimento ento­mológico do casmurro e massacrado homo brasiliensis”. Eulalio atesta ainda que, “amadurecido, o crítico já não disputa com o ficcionista – irmão e inimigo – o predomínio intelectual; dispensando desferir a última pala­vra, abandona o gosto do veredicto para instaurar, muito mais vivo, ardente diálogo com o texto”. Tudo isso, acrescenta, embebido em “ironia corrosiva (indispensável reagente químico anticonformista na farmácia Schwarz)”, sintetizada por Eulalio numa imagem deliberadamente extravagante: “A Musa da Ironia de Roberto usa terninho de veludo preto sem blusa alguma, paletó generosamente desabotoado bem baixo, e em cada mão um tubo de vitríolo, modelo grande, desses de laboratório profissional”.

O que este praticante do “ensaio brasileiro” vê em seu irmão, seu pró­ximo, é, portanto, o intelectual onívoro que, fiel aos próprios interesses flutuantes, acaba constituindo uma coerência não regrada por matérias ou ortodoxias – ainda que seja sumamente importante em Schwarz o com­promisso e a convicção ideológicos de esquerda, em tudo e por tudo tão distante do nem tão discreto monarquismo de Eulalio. Tal complexidade é expressa por uma escrita literária, provocativa e autoirônica na qual o gume afiado da não ficção jamais exclui a deriva da imaginação.

Ora, o que vale aqui para Roberto Schwarz vale para Alexandre Eula­lio, tanto no geral quanto nos limites daquela resenha. Porque ele, como grande parte dos que se dedicam principalmente ao ensaio, volta e meia põe-se a falar de seu próprio lugar. Uma reflexão que pode brotar do imediato, no “hoje-já-meio-ontem” que é a temporalidade predomi­nante do ensaio, ou mesmo transformar-se numa viagem de longo curso ao passado.

 

Ensaio de origem

Influenciado por Lucia Miguel Pereira e Brito Broca, Alexandre Eulalio descobriu cedo que queria fazer “ensaio brasileiro”, pouco mais de uma década mais tarde iria tentar encontrar na história a origem da ambi­cionada filiação intelectual. “O ensaio literário no Brasil”, assinado com o pseudônimo Capangueiro, venceu o Prêmio Brito Broca, promovido em 1962 pelo Correio da Manhã em homenagem a seu amigo, morto um ano antes. No júri, Otto Maria Carpeaux, Fausto Cunha e Augusto Meyer – todos dedicados principalmente ao ensaio e, também, autodidatas.

Aqui, mais uma vez, os detalhes interessam. “Capangueiro”, explicou ele em entrevista a José Condé depois de receber a premiação, era o “antigo comprador de diamante, que ia pelas lavras afora escolhendo pedras nos garimpos”. Tendo herdado a balança em que seu avô pesava o que recebia dos capangueiros, Eulalio transformou-a no brasão pessoal de uma “von­tade de precisão diamantina: o ensaísta aprendiz de crítico a pesar letras e palavras na balança avoenga, e que não sabe se reconhecerá o alef de que fala Borges”.

“O ensaio literário no Brasil” é ousada tentativa de compreender os tor­tuosos percursos do gênero na história literária brasileira entre os séculos 18 e 20, ou, como ele mesmo definiu naquela entrevista, “um panorama crítico evolutivo de 150 anos de nossa prosa de não ficção, portanto um panorama que, grosso modo, vai de Hipólito da Costa a Antonio Candido”, ou seja, do início da imprensa livre no país, com o fundador do Correio Braziliense, até Formação da literatura brasileira.

A publicação do ensaio vencedor pela José Olympio era parte do Prê­mio Brito Broca, mas este precioso texto ficaria inédito até 1989, quando saiu pela primeira vez na revista Língua e Literatura, do Departamento de Letras da usp. Especula-se se ele não teria “postergado infinitamente” a publicação para estender e aprofundar as riquíssimas sugestões e caminhos possíveis ali indicados. Mas se, como escreve Eduardo Portella, o ensaio é sempre “menos do que pode e mais do que deve”, o texto de Eulalio é modelar.

Comparando o ensaio literário a uma “península estética” que tem seus limites redefinidos constantemente por uma “maré muito variável”, Eulalio procura mapear historicamente as ocorrências do que chama de prosa de não ficção dentro de uma “vida literária consciente” do Brasil. Por esta consciência, entenda-se a escrita intencional, refletida, “dentro de um critério mínimo de prosa literária cultivada”. Critério que vinga­ria aqui tardiamente, já que o ensaio, que nasceu na França e cresceu na Inglaterra, ganhou o mundo sem passar, como gênero corrente, pela “área portuguesa” – seja na metrópole, onde a cultura permanecia “confinada à livraria do erudito ciumento”, ou em suas colônias distantes.

Resultado do compromisso entre o livre juízo e o periodismo, o ensaio só se constituiria enquanto tal com a Independência. Mas na hipótese de Eulalio é possível identificar aqui e ali uma “índole ensaística” ou mesmo um “ensaísmo involuntário” – a primeira presente nos Sermões do padre Antônio Vieira; o segundo quando, em exemplo citado, José Bonifácio usa a forma de uma carta para dar seu recado político, embalando assim as ideias numa forma estrategicamente eleita.

O percurso proposto por Eulalio – pontuado por atalhos, digressões e potenciais pontos de partida para outros trabalhos – culmina estabe­lecendo a filiação do ensaio à crítica literária (“musa retardatária, matri­culada por último num jardim do Parnaso cheio de mato”), à reflexão sobre a identidade nacional (com Mário de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre) e à produção universitária. É aí, onde sua análise se interrompe voluntariamente, que o gênero, segundo ele, surge como “problema estético e cultural” e alcança “o limite de consciência indispensável para a plenitude dessa espécie literária”.

 

Uma digressão: na companhia dos impuros

Gilberto Freyre, cuja obra decisiva e controversa configura um dos tais problemas estéticos e culturais do ensaísmo, sobretudo no confronto com o conhecimento científico, escreveria em 1975 sobre a importância do gênero em sua formação intelectual: “Desde que li [Walter] Pater a pri­meira vez, ainda em Baylor, ele se tornou tão parte da minha vida quanto Charles Lamb, que eu supunha não pudesse ser excedido por nenhum outro escritor na arte do ensaio”. Três anos mais tarde, reconheceria, no entanto, que, apesar de não ser “de todo pobre no gênero”, a literatura em língua portuguesa foi pródiga sobretudo em ensaístas que praticavam esta forma literária “sem o saber”.

Em raciocínio rigorosamente ensaístico, ou seja, libérrimo, Freyre defende, no prefácio a Alhos & bugalhos – Ensaios sobre temas contraditórios: de Joyce à cachaça, de José Lins do Rego ao cartão-postal, que o brasileiro teria uma disposição quase atávica para o gênero, ecoando sem o saber, a rica sugestão de uma “índole ensaística” feita por Alexandre Eulalio. Diz o autor de Sobrados e mucambos que o ensaio é “expressão literária em harmonia com o que, no brasileiro, é, em vários casos, misto de ânimo lírico e de gosto pela análise, pela observação, pela interpretação, pela crítica criadora sem deixar de ser objetiva”.

De forma ainda mais interessante, Freyre defende o ensaísmo de duas acusações que lhe são frequentemente dirigidas do ponto de vista do trabalho intelectual institucionalizado: a “imperfeição” formal, que mis­tura procedimentos de gêneros literários distintos, e sua consequência direta, a “impureza”. É “impuro”, segundo Freyre, aquele escritor que não conhece a fronteira entre o literário e o não literário, ou seja, que escreve sem levar em conta as autorizações que pretendem organizar o conhe­cimento e a cultura. O escritor – e aí ele também não vê distinção entre ensaísta ou romancista – alcança tanto mais legitimidade quanto mais “acrescente ao que é literário, nos seus objetivos e na sua linguagem, ele­mentos não literários”.

Em outras latitudes, mas não menos significativamente, a linhagem dos impuros tem notável representanteem Roland Barthes. Quemo disse foi o próprio e em situação que dramatiza os impasses do ensaio mesmo no país a que se atribui o surgimento do gênero e que, até excessivamente, preza os valores de sua literatura. Fenômeno acadêmico e popular na França dos anos 1970, Barthes percorreu tortuoso caminho até ser admitido no Collège de France. A instituição, como se sabe, difunde desde o século 16 um modelo livre de ensino – seus cursos não conferem grau e são permanentemente franqueados ao público –, ainda que sustentado por uma ideia perfeita­mente hierárquica de autoridade: trata-se do mais alto posto de um profes­sor na França.

Até proferir a célebre aula inaugural de 7 de janeiro de 1977, Barthes, que não tinha doutorado, teve sua candidatura escrutinada por intelectuais e professores pouco à vontade com sua variada obra. Até então, tinha se aven­turado pela cultura de massa (Mitologias e Sistema da moda), analisado here­ticamente monumentos literários (Sobre Racine e, no estudo S/Z, Balzac) e aproximado autores improváveis (Sade, Fourier, Loyola). Segundo Marie Gil, biógrafa de Barthes, Michel Foucault, teoricamente defensor de sua candida­tura para o Collège, dizia horrores de sua obra e, na aula inaugural, demons­trou teatral enfado quando o novo professor proferiu a bombástica e célebre afirmação: “A língua é fascista”. Mas, daquela aula, nos interessa aqui o início, revelador (com destaques meus):

 

Se minha carreira foi universitária, não tenho entretanto os títulos que dão geralmente acesso a tal carreira. E se é verdade que, por longo tempo, quis ins­crever meu trabalho no campo da ciência, literária, lexicológica ou sociológica, devo reconhecer que produzi tão somente ensaios, gênero incerto onde a escri­tura rivaliza com a análise.

 

E, mais adiante: “É, pois, um sujeito impuro que se acolhe numa casa onde reinam a ciência, o saber, o rigor e a invenção disciplinada”.

Há, é claro, diferentes graus de impureza na linhagem do ensaísmo. E é Antonio Candido quem vai reforçar o vínculo de Alexandre Eulalio com essa estirpe. Na orelha que apresenta Tempo reencontrado: ensaios sobre arte e literatura, mais um “livro involuntário” de Eulalio organizado por Carlos Alberto Calil (coedição da 34 com o ims), o professor faz o elogio do “nivelamento revelador”, que desconsidera hierarquias consagradas entre obras e autores para, neste mergulho, encontrar novos caminhos. “Sua visada era impura, num bom sentido da palavra”, escreve o crítico (e o destaque é dele), “pois ele não tinha o desejo formalista de especifici­dade e depuração, que estava na moda quando exercia a crítica”.

 

Uma terceira margem

Digressão feita, há no impuríssimo ensaio sobre o ensaio de Alexandre Eulalio ainda outro ponto que, à maneira de Montaigne, ele deixa em aberto para um futuro crítico. Concedendo, finalmente, que o gênero não é, afinal, “a província deserta, ou quase despovoada, de nossas letras”, ele defende que, no encontro com a universidade, então produzindo fagulhas, pode estar uma oportunidade de depurar as diversas manifes­tações do ensaísmo brasileiro. Uma nova etapa que seu texto não contem­pla e que teriaem Antonio Candido– novamente ele – um importante ponta de lança.

Aqui é preciso voltar a 1978 e ainda a uma outra dedicatória. Esta impressa, em O pai de família e outros estudos, o livro de Roberto Schwarz resenhado por Alexandre Eulalio:

 

Ao meu mestre-açu Acê.

 

Com entonação macunaímica, o autor usa o tupi (açu é sufixo de mag­nitude, o “mestre-grande”) e o jogo fonético (Acê refere-se às iniciais a e c) para saudar Antonio Candido. A ele Schwarz irá referir-se de diversas for­mas ao longo de sua carreira, mas superlativamente na menção que faz no prefácio de Um mestre na periferia do capitalismo. No livro, de 1990, afirma que o professor o “impregnou” a tal ponto que “as notas de pé de página não têm como refletir”.

Em 1960, Schwarz era um insatisfeito estudante de sociologia. No ter­ceiro ano, vivia um impasse diante do modelo de sociólogo que então se impunha, definido, em suas palavras, como um profissional dedicado à “pesquisa empírica, quantitativa, com metodologia norte-americana”. Não por acaso decidiu aconselhar-se com Antonio Candido, que num outro estágio da vida também havia deixado a sociologia e, instalado na universidade de Assis, no interior de São Paulo, estruturava um depar­tamento de teoria literária. “Fui até lá perguntar a ele o que achava da minha crise, que, mal comparando, já tinha sido a dele”, lembra.

A crise à qual Schwarz se refere se dá, precisamente, depois da con­clusão de Os parceiros do Rio Bonito, em 1954. Defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a tese de doutorado de Antonio Candido evidenciou a incompatibilidade do talho intelectual de seu autor – um crítico que, no domínio pleno do rigor conceitual, não abriria mão da liberdade especulativa e da aborda­gem transversal da cultura – com a obstinação metodológica que visava a instaurar padrões científicos nas ciências humanas. Por estes padrões, entendam-se a observação estrita dos limites disciplinares e o franco estímulo ao uso do jargão especializado, que tende a se sobrepor à escrita livre e de feição literária. A banca votou contra a nota máxima por enten­der que o trabalho filiava-se mais à antropologia que à sociologia.

Pode-se apressadamente ver aqui reflexo de uma suposta querela do cientificismo e do impressionismo, do disciplinamento enrijecido e da liberdade. Mas a figura única de Antonio Candido vai apontar para uma terceira margem, que no dizer de Schwarz firma “um padrão de ensaísmo inédito no Brasil” por meio de “escritos que abrem mão da ter­minologia e da exposição científicas, mas não da disciplina mental e dos conhecimentos correspondentes”. Tal será a tônica tanto da obra de Candido dali em diante, incluindo a monumental Formação da literatura brasileira, quanto da de Schwarz, que trabalhará como seu assistente e, seguindo sua orientação, prosseguirá a própria formação nos eua e na França, definitivamente mais próximo de um Alexandre Eulalio que de um Florestan Fernandes – este considerado, não sem razão (nem com menos importância), o pai da sociologia de matriz científica no Brasil.

Outro dos mais brilhantes alunos de Candido, Davi Arrigucci Jr., evidencia no próprio autor de Literatura e sociedade uma chave para sua marca crítica, que nem de longe se resume a uma solução formal. “Instrumento crítico por excelência”, escreve Arrigucci em “Movimentos de um leitor”, o ensaio por assim dizer solta o espírito, que, instigado pela imaginação, pode proceder por tentativas, experimentar por tateios. E assim a busca da verdade, posta entre a ciência e arte, pode caminhar por sondagem, aventurando-se no desconhecido. A procura de novos ângulos de desvendamento, avançando sobre o já dado, corresponde a um impulso ao mesmo tempo experimental e humanizador na demanda do conhecimento e constitui o movimento principal do leitor, a viagem em que se realiza o que provavelmente Antonio Candido concebe como ima­ginação crítica.

A ideia de uma imaginação crítica implica ainda dois pontos importantes. Vacina o crítico da assimilação indiscriminada de conceitos e métodos – sobre­tudo das “modas” – e representa uma permanente abertura ao diálogo com o leitor culto e não especialista. É como se as estratégias narrativas da crônica ou o cultivo da clareza de raciocínio dessem corpo e chão – sem nivelar pela mediania, bem entendido – ao que há de potencialmente autorreferente e exibicionista em raciocínios puramente teóricos. E, nesse mesmo movimento, alimentassem a escrita com o rigor e a meditação próprios dos raciocínios orientados pelo método. Trata-se de uma arte impura que pode unir diletan­tes e professores no que Lucia Miguel Pereira chamou de “atitude mental”.

 

Uma entrega de símbolos

Voltemos ao começo. Ao dedicar o livro ao professor, o diletante bem sabia que suas trajetórias estavam separadas – não em qualidade ou inquietação intelectuais, mas pelos lugares que ocupariam no debate intelectual brasi­leiro, lugares que já se delineavam naquele momento. Em duas frentes, tra­çava-se uma linha divisória perversa e incrivelmente resistente.

Por um lado, a profissionalização indiscriminada da carreira universi­tária, com a banalização das titulações, a burocratização das pesquisas e o adestramento das formas de expressão da produção acadêmica. Por outro, a redução progressiva, a teores mínimos, das ambições intelectuais dos periódicos não especializados, com a aposta, majoritária, no nivelamento de abor­dagens e temas.

Os partidários de um e de outro lado trabalham com afinco para tor­nar a barreira intransponível. Professores criticam duramente – e não sem razão, diga-se – a banalização das discussões intelectuais não especializadas. Intelectuais não institucionais atacam – também com seus motivos, desta­que-se – o circuito autocongratulatório da academia, no qual o diálogo entre pares muitas vezes parece mais importante que o diálogo com a sociedade.

É certo que nem todo diletante é Alexandre Eulalio. E que nem todo professor é Roberto Schwarz. E só assim, pensando sem reduzir a inte­ligência a essências, será possível escrever os capítulos que ficaram fal­tando no tropeçante e, como não poderia deixar de ser, errático percurso do ensaísmo brasileiro.

 

Referências

Quando não identificadas diretamente, as referências são as que seguem, na ordem em que aparecem no texto.¶ E.B. White assim se define na introdução a Essays of E.B. White, citado em Essayists on the Essay, organizado por Carl H. Klaus e Ned Stuckey-French.¶ A aventura brasileira de Blaise Cendrars ganhou em 2000 uma segunda edição, ampliada e edi­tada por Carlos Alberto Calil (Edusp/Imprensa Oficial).¶ “Lucia Miguel Pereira e a historiografia literária” (revista Exagium, n. 9) e “Lucia Miguel Pereira e o ensaísmo” (revista Línguas & Letras, n. 12), ambos de Josoel Kovalski, bem como “Crítica de cultura no feminino”, de Heloisa Pontes (revista Maná, n. 14, 2008), ajudam a traçar um retrato intelectual e biográfico da crítica carioca.¶ A história do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo está em Suplemento Literário: que falta ele faz! (Imesp, 2007), de Elizabeth Lorenzotti, sendo a participação de Brito Broca detalhada em “Brito Broca no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo – 1956-1961”, de Nelson Luis Barbosa.¶ Para entender melhor o Grupo Clima, há o fundamental Destinos mistos (Compa­nhia das Letras, 1998), de Heloisa Pontes.¶ As informações biográficas sobre Brito Broca constam do “Estudo biobibliográfico”, assinado por Homero Senna no número 11 da revista Remate de Males, dedicada ao crítico.¶ “Coelho Neto, romancista” foi lido por Alexandre Eulalio em 1954, quando republicado em O romance brasileiro (de 1752 a 1930), volume organizado por Aurélio Buarque de Holanda para as Edições O Cruzeiro. Passou a integrar o volume Ensaios da mão canhestra.¶ Além das citadas, as obras de Brito Broca passaram a ser publicadas pela Editora da Unicamp, em sete volumes, a maioria dos quais esgotada em 2012.¶ A célebre entrevista de Brito Broca foi incluída, sem data, em Escrita e vivência, um dos volumes da obra reunida do autor. Em conversa em junho de 2012, Mary Ventura diz não se lembrar do encontro, mas acredita que tenha acontecido no final dos anos 1950.¶ A resenha de Alexandre Eulalio para O pai de família e outros estudos está em Livro involuntário: literatura, história, matéria e memória (Edi­tora ufrj, 1993), organizado por Carlos Augusto Calil e Maria Eugenia Boaventura.¶ “O ensaio literário no Brasil” é comentado pelo próprio Alexandre Eulalio em “Vida breve de Alexandre Eulalio”, texto de Homero Senna no muitas vezes referido número da Remate de Males dedi­cado à sua obra. O ensaio em si, além da revista Língua e Literatura, foi incluído em Escritos (Unicamp/Unesp, 1992), coletânea organizada por Berta Waldman e Luiz Dantas.¶ As alusões de Gilberto Freyre a Walter Pater e Charles Lamb são citadas por Silvana Moreli Vicente em “Entre o inferno e o paraíso: o ensaio de Gilberto Freyre”, na revista Estudos Linguísticos, n. 34, de 2005. A teoria do “escritor impuro” é defendida brevemente pelo sociólogo em Heróis e vilões no romance brasileiro, volume organizado por Edson Nery da Fonseca para Cultrix/ Edusp em 1979.¶ A citação de Roland Barthes vem de Aula (Cultrix, 1980), em tradução de Leyla Perrone-Moisés. Roland Barthes: au lieu de la vie é a biografia de Marie Gil, lançada em 2012 pela Flammarion.¶ Todas as falas de Roberto Schwarz sobre sua crise intelectual vêm de memorial acadêmico apresentado em 1990 na Unicamp e são citadas por Rodrigo Martins Ramassote na utilíssima dissertação de mestrado A formação dos desconfiados: Antonio Candido e a crítica literária aca­dêmica (1961-1978), defendida na Unicamp, em 2006.¶ As referências de Schwarz ao ensaísmo de Candido estão em “Saudação honoris causa”, publicado em Sequências brasileiras (Compa­nhia das Letras, 1999). “Movimentos de um leitor”, de Davi Arrigucci Jr., faz parte de Outros achados e perdidos (Companhia das Letras, 1999).¶ Agradeço a Elvia Bezerra, Katya de Moraes Perez e Fábio Frohwein, do Instituto Moreira Salles, e a Carla Rodrigues pela ajuda fundamen­tal na bibliografia, bem como a Vera Lins pela preciosa dica de “O ensaio literário no Brasil”.¶

  

 

Paulo Roberto Pires (1967) é editor da serrote. Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, é autor do romance Se um de nós dois morrer (Alfaguara, 2011).

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