A geração teoria – por Nicholas Dames

 

Jacques Derrida

O chamado pós-estruturalismo dominou os departamentos de humanidades dos EUA na virada da década de 1970 para a de 1980. Desde então, autores tão distintos quanto Roland Barthes, Jacques Derrida e Gilles Deleuze ganharam o rótulo de French Theory, ou simplesmente Theory, a “Teoria” a que o professor de Columbia Nicholas Dames se refere para identificar uma tendência do romance contemporâneo. Este ensaio foi publicado pela revista n+1, que gentilmente o cedeu para a serrote.

Se em algum momento depois dos anos 1980 você estudou Liberal Arts em uma faculdade americana, é bem provável que tenha sido exposto à chamada Teoria. Dela, talvez você ainda guarde alguns talismãs característicos: aquele exemplar do Foucault Reader que traz na capa a careca e os olhos penetrantes do mestre, emblemas do pensamento em estado mais puro; a edição de Mil platôs ilustrada por um desenho escheriano que promete os arrepios da desorientação; a lombada acinzentada da Dialética negativa de Adorno; uma pilha de livrinhos da editora Semiotext(e) comprados ao longo dos anos naquela locadora de vídeos hoje fechada. Deles, talvez ainda emane um leve odor de revolta, revelação ou (pelo menos) insatisfação típica do fim da adolescência. Talvez lhe causem embaraço (por tê-los deixado de lado ou por nunca tê-los lido); talvez provoquem desdém (pelo preciosismo da linguagem ou por não servirem para resolver dilemas adultos entediantes); talvez não digam mais nada. Mas é bem possível que, daquele tempo, eles sejam tudo o que restou. E, na casa de seus amigos, você ainda pode ter a sensação meio engraçada ou constrangedora de cumplicidade ao encontrar exatamente os mesmos livros.

Se esse é o caso, você faz parte do que poderíamos chamar de Geração Teoria. De um tempo para cá, ficou claro que alguns de seus membros têm refletido sobre a formação que tiveram. Na maioria das vezes, fazem essa reflexão por meio de um gênero mais antigo que a Teoria, um gênero que ela fez de tudo para desnaturalizar e desmistificar (ok, para “desconstruir”): o romance, mais ou menos realista, que descreve a vida de indivíduos de maneira mais ou menos linear e uma prosa convencional, ainda que elegante ou bem construída. Pegue como exemplo a protagonista de A Gate at the Stairs, de Lorrie Moore: uma jovem chamada Tassie, criada na zona rural de Wisconsin, que descreve o choque de seu primeiro ano em uma universidade pública: 

Duas vezes por semana, um jovem professor chamado Thad, de jeans e gravata, falava com empolgação diante de uma turma de garotos caipiras e bronzeados como eu sobre a masturbação da vírgula em Henry James. Ficava vidrada. Nunca tinha visto um homem de jeans e gravata.

O humor sem-graça do Meio-Oeste, tão cru em sua sintaxe, evoca de forma brilhante o momento de iniciação à Teoria: ouvindo muito e debatendo pouco, Tassie só consegue, pelo menos num primeiro momento, entender a Teoria como um estilo. Thad leu sua dose de Eve Sedgwick; Moore alude claramente à polêmica envolvendo “Jane Austen e a garota se masturbando”, artigo que Sedgwick escreveu para a Modern Language Association em 1989 que se tornou o detonador de análises conservadoras que denunciavam a decadência dos estudos literários. No entanto, Tassie nunca tomou conhecimento desse episódio. Para ela, trata-se apenas de uma conversa ouvida por acaso – uma síntese do estado constante da Teoria nas salas de aula americanas, onde debates com interlocutores ocultos ou anônimos (Derrida com Marx ou Foucault com Hegel) se tornam uma cacofonia de linhas cruzadas. O que é perceptível para ela é a entonação, o grão dessas vozes teóricas. Falando de forma menos metafórica: a maneira como os professores falam e se vestem, as alternativas estilísticas que oferecem.

A mesma mistura do pessoal com o altamente teórico é a motivação de um trecho de A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan:

– O que diabos você leva nessa mochila?

É Cora, a agente de viagens de Lou. Ela odeia Mindy, mas Mindy não leva para o lado pessoal – é Ódio Estrutural, um termo que ela mesma cunhou e que vem sendo muito útil nesta viagem. Uma mulher solteira de seus 40 que veste camisetas de gola alta para esconder o músculo saliente de seu pescoço vai desprezar estruturalmente a namorada de 23 anos de um macho poderoso que não apenas emprega a dita fêmea de meia-idade, como também está pagando a viagem dela.

– Livros de antropologia – ela diz a Cora. – Estou fazendo doutorado em Berkeley.

Mais velha e segura de si do que Tassie, a Mindy de Egan consegue aplicar diretamente a Teoria – aqui, usando Lévi-Strauss para entender um triângulo adulto complexo. Ela está começando a intuir que a Teoria pode oferecer o que promete, ou seja, interpretar situações de sua vida cotidiana: “Mindy até se perguntou se seus insights a respeito da relação entre a estrutura social e a resposta emocional poderiam ser mais que uma mera reciclagem de Lévi-Strauss – um refinamento de suas ideias; um uso contemporâneo”. Mas aplicar a Teoria a si própria, em vez de simplesmente ficar impressionada com sua estranheza, já seria um outro passo: “Ela ainda está no segundo ano”.

Por décadas, foi fácil rastrear o impacto da Teoria sobre o romance, principalmente nos casos de romances mais experimentais ou formalmente inovadores, como, por exemplo, no caso dos praticantes do nouveau roman que tinham o selo de aprovação da Teoria (Robbe-Grillet, Sollers, Sarraute) ou dos anglo-americanos que, depois do fim dos anos 1970, pareciam concentrar-se em incluir em suas próprias reviravoltas narrativas a força centrípeta da Teoria (de DeLillo ao Pynchon tardio, Winterson, Foster Wallace, Tom McCarthy e afins). Há ainda uma forte produção caseira – exemplificada recentemente por The Novel After Theory, de Judith Ryan – ávida para explicar como o romance contemporâneo vem abrindo novos caminhos para a Teoria, despindo-a de sua terminologia rebarbativa (e também de grande parte de seu charme esnobe) e aplicando-a a situações concretas. É a visão de uma utopia pós-moderna estranhamente conservadora e não dialética. Nela, romancistas e teóricos andariam de mãos dadas, novas perspectivas teóricas encontrariam seus correspondentes na narrativa e ementas de disciplinas se construiriam praticamente sozinhas.

Essa ideia aparentemente “avançada”, mas sobretudo entediante, de que a Teoria alteraria até mesmo o DNA dos romances, tornando impossível escrever ficção à moda antiga, pode se aplicar a escritores que seguem de maneira clara e intensa o pós-modernismo. Entretanto, surge agora uma nova leva de ficção que nos traz um panorama mais complicado e menos academicamente consagrado. No fim das contas, a Teoria poderia ser mais interessante não quando é utilizada para alterar a forma da ficção, mas quando se torna uma parte deslocada do conteúdo da ficção. Em romances recentes de autores que terminaram a faculdade no fim dos anos 1970 ou nos anos 1980 – Egan, Moore, Jeffrey Eugenides, Jonathan Franzen, Sam Lipsyte – e de escritores mais jovens, como Teju Cole e Ben Lerner, a Teoria é julgada a partir das formas que ela mesma tentou desmantelar (o realismo psicológico, o romance de formação), a partir de critérios que ela reconheceria apenas como ingênuos ou como um retrocesso: que tipo de personagens a Teoria gera? O que significava ter lido os teóricos? O que significa agora? Como a Teoria pode ajudar você a manter um emprego? Ou a lidar com seus companheiros, filhos, chefes e pais? A decidir entre as alternativas limitadas da vida adulta? Se os romances realistas almejam ser uma historiografia do presente, esse presente agora inclui, na formação dos próprios escritores, a Teoria que relega os romances realistas ao passado.

Até agora, há duas respostas claras a essa tendência. A primeira – comum em muito do que se tem falado sobre A trama do casamento; se você aguentar, escute Terry Gross desdenhando alegremente dos “signos e figuras de linguagem” em sua entrevista com Eugenides – é a vontade que esses romances confirmem o fracasso ou a irrelevância cômica da Teoria, para que possamos jogá-la de uma vez por todas na enorme lixeira do kitsch dos anos 1980, ao lado de coisas como Duran Duran e ombreiras. A segunda e mais sensível resposta acolhe a avaliação realista de pessoas envoltas pelos estudos de Teoria. Ao elogiar, na New Yorker, Cidade aberta, de Teju Cole, James Wood destaca a habilidade do escritor em mostrar a leitura aprofundada da teoria crítica (Barthes, Benjamin, Edward Said, Deleuze, Paul de Man, dentre outros) como “uma parte simples e natural do que forma uma pessoa”.

O problema é que esses romances não oferecem nenhuma garantia de que a Teoria possa ser superada como um modismo e que, tendo aprendido a respeito de “signos e figuras de linguagem”, alguém possa deixar facilmente esses conhecimentos de lado. Quando levada a sério – e muitos desses romancistas encaram a Teoria com toda a seriedade possível, muitas vezes a ponto de se tornarem cômicos –, a Teoria aniquila a ideia de que poderíamos conhecer tudo que “forma uma pessoa”. Esses romances não rejeitam nem aceitam totalmente a Teoria; eles a satirizam com certo desconforto. É um registro melhor demonstrado pela dupla negativa, da qual temos um exemplo perfeito na formulação arrependida e perplexa de The Ask, de Lipsyte, descrevendo – e o que mais seria? – a época de faculdade do narrador Milo: “Nós bebíamos cerveja artesanal, fumávamos maconha plantada em casa e comprada. Usávamos palavras como ‘sistêmico’, ‘interpelar’, ‘aparato’ e ‘intervenção’. Lembro de pensar na época: isso não é uma bobagem. Mas não era uma não-bobagem”.

É claro, seria um erro ver o romance realista como algo anti-intelectual, incapaz de se ocupar de ideias. Na verdade, o romance já se ocupa de uma lista diversificada e intimidadora de ideias. Psicologia associativa (Tristram Shandy), biologia evolutiva (Middlemarch, Tess of the D’Urbervilles), capitalismo financeiro (The Way We Live Now), psicanálise (A consciência de Zeno), física pós-newtoniana (O leilão do lote 49): o realismo expandiu seus limites para abarcar esses e incontáveis outros domínios – muitos dos quais, como o existencialismo, tornaram-se obrigatórios na formação humanista americana. São as tais Ideias Contemporâneas.

Agora, pense no grupo bem menor de ideias que o realismo não consegue abarcar prontamente, mas apenas retratar – geralmente por meio de personagens emblemáticos, quase alegóricos, porque essas ideias se sustentam justamente pela oposição ao realismo: energia política convulsiva e revolucionária; fervor religioso transformador. São esses os grandes Outros do realismo, sempre a postos para considerar fracos ou alinhados o foco em pequena escala e o humanismo individualista típicos do realismo. A qual desses dois grupos a Teoria (seja ela de roupagem pós-estruturalista, rizomática ou frankfurtiana) pertence?

Pode-se fazer uma boa comparação com os grandes realistas russos do século 19. O niilismo em Turgenev ou o utilitarismo utópico em Dostoiévski não são ideias que o romance deve, ou sequer pode, assimilar; ele pode apenas reconhecer a sua existência. Bazaróv, de Turgenev, e Stavrogin, de Dostoiévski, rejeitam de maneira implícita os pressupostos – liberais, individuais, psicológicos, progressistas – do modo como eles são apresentados. A própria ideia de escrever romances em um mundo tal como eles o concebem é extremamente retrógrada: assim, Bazaróv recusa Schiller e Goethe, caros a Nikolai Kirsanov, pai de seu amigo, e manifesta sua preferência pelo materialismo do Stoff und Kraft, de Ludwig Büchner. Esses personagens e as ideias que eles personificam são, ao menos potencialmente, como a Teoria: são resultado de uma formação nova e alternativa, hostil àquilo que veem como um retrocesso da narrativa romanesca, e defendem uma compreensão de mundo em que o indivíduo (tal como representado no romance) deixa de fazer sentido. O romance, por sua vez, responde à altura, narrando o fracasso desses personagens e, ao mesmo tempo, permitindo-nos estabelecer um interesse genuíno por esses rebeldes desafortunados. Assim, as lógicas do enredo e da experiência humana parecem aderir ao “mundo como ele é”.

Já iniciados na Teoria, será que os personagens de romances como As correções, The Ask ou A trama do casamento possuem algo que se pareça com a energia endiabrada de um niilista como Bazaróv? Você pode imaginá-los conversando com Bazaróv – até mesmo concordando com ele na maior parte do tempo –, mas, ao compará-los, eles parecem inofensivos, vulneráveis ao mundo que a Teoria os instruiu a desconstruir. Seu temperamento faz lembrar o dos aventureiros de bom coração de Tolstói. A Teoria está para eles como a maçonaria para Pierre Bezukhov: uma etapa sedutora da educação que, no fim das contas, é tão centrada no culto e em si mesma que não consegue explicar as reviravoltas do mundo. Ou, talvez, seja mais parecida com a homossexualidade em Evelyn Waugh: uma etapa do amadurecimento que deve ser deixada para trás para que o indivíduo ocupe seu lugar na ordem social. (Mais uma vez, Milo, de The Ask, fala sobre seus estudos na universidade: “Aprendi sobre o capitalismo tardio. E também como cheirar heroína.” Ao que seu interlocutor, um advogado profano mais velho, cheio de malandragem, pergunta: “Eles te ensinaram alguma coisa sobre ser homem enquanto você estudava o capitalismo tardio, seja lá que porra for essa?”). Será que a Teoria ameaça romper as normas do mundo realista, ou devemos apenas esperar que os personagens superem essa fase?

Essa é a estranha posição que os romances da Geração Teoria ocupam, o que faz deles peculiares romances de ideias.¹ Seus autores leram Teoria o bastante quando ainda eram jovens o bastante a ponto de continuar escravos de seu poder; eles fazem jus ao choque desorientador que esses textos um dia provocaram, e talvez ainda provoquem. Por outro lado, estão velhos o bastante para ironizar (de forma terna ou amarga) esse poder. Quando, em seus livros, fazem descrições, podem ser cáusticos, nostálgicos ou lamentosos; seus personagens, eles mesmos leitores da Teoria, são céticos, decepcionados e mal adaptados. É como se a fragilidade demasiadamente humana desses personagens indicasse que eles não se adequam às reivindicações da Teoria – uma demonstração irônica e sagaz (comum em toda a história da ficção realista) de que essas reivindicações podem não se adequar às necessidades humanas.

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Se você tivesse que fazer uma primeira abordagem desse conflito, não seria má ideia reler o trecho de As correções em que Chip Lambert, ex-professor-assistente de uma “cadeira de artefatos textuais”, professor de “narrativas do consumo”, lecturer dedicado a analisar a ansiedade fálica no teatro da Era Tudor, vítima de um caso movido a drogas com uma aluna, volta várias vezes à livraria Strand para vender partes de sua grande e cara coleção de Teoria. É um pequeno triunfo da convenção realista em sua forma mais agressiva. Começando pelos títulos dos teóricos marxistas, que custaram 3.900 dólares, mas são arrematados por 65, Chip encontra em “suas feministas, seus formalistas, seus freudianos, seus estruturalistas, seus pós-estruturalistas e seus queers” uma forma de levantar dinheiro para jantares caros, em que o objetivo é impressionar a nova namorada. Restando, no fim, apenas os seus “amados historiadores da cultura”, Chip “abarrotou sacolas com seus Foucault, Greenblatt, hooks e Poovey e vendeu todos eles por 115 dólares”. Os números patéticos e específicos, o rol de nomes terrivelmente precisos (não apenas nomes da filosofia europeia, mas de acadêmicos americanos, o que demonstra o quanto Franzen é um insider na área): isso é o quanto vale a Teoria.

Cenas em que as coisas vãs desse mundo são vendidas – leilões, arremates, negociações em casas de penhores –, frequentes no realismo, expressam o duro princípio de que nossos ideais não podem ser traduzidos em termos de mercado. No fim das contas, nossos desejos, fantasias ou ilusões são limitados não pela Verdade, mas pelo que os outros estão dispostos a pagar por eles.

Franzen (formado em Swarthmore, em 1981), Eugenides (Brown, 1983), Egan (Penn, 1985) e Lipsyte (Brown, 1990), entre outros, estavam bem posicionados para observar a chegada veemente dos primeiros teóricos às salas de aula. Na época, a Teoria parecia – e talvez ainda pareça, de uma maneira mais rotineira – tão esotérica, misteriosa e potencialmente desencorajadora quanto qualquer outra experiência adulta que os anos de faculdade prometiam. A batalha parecia épica: ela contrapunha os Fazedores de Coisas – poetas, romancistas – aos Desfazedores de Ideologias. Estar do lado destes era, em diversas partes dos Estados Unidos, o preço para ingressar em muitas disciplinas das humanas. Não que a escolha fosse difícil: tudo ao seu redor – o discurso público, as demandas sociais, as ironias econômicas – demandava críticas. “Estávamos presos em meio a significados”, rememora o Milo, de The Ask. “Ou éramos as últimas gotas de alguma coisa. Era difícil se dar conta. O fim da União Soviética, a morte do analógico. O início da venda agressiva de nachos.”

Esse foi o momento – no caso, ao longo dos anos 1980 – em que, dentre outras coisas, a universidade americana, não mais contente em descrever ou estudar a função de crítica da sociedade que a arte de vanguarda havia reivindicado para si ao longo de mais de um século, passou ela mesma a abrigar a vanguarda. Foi literalmente assim: as universidades começaram a receber e a remunerar importantes pensadores europeus no momento exato em que a influência deles em seus países de origem começava a declinar. Diferentemente de seus antecessores, que chegaram antes e durante a Segunda Guerra Mundial, personalidades como Derrida não vieram apenas para esperar o fim de um conflito. Em vez disso, vieram para conquistar, lançando mão de revistas acadêmicas recém-criadas, departamentos reformulados, estudantes de pós-graduação que eram seus protegidos e acólitos e traduções produzidas pelas editoras universitárias e lidas em contextos pedagógicos. O resultado foi a institucionalização da Teoria e sua submissão à lógica de um mercado acadêmico que exigia doses regulares de novos insights; mas foi também a transformação da própria instituição, que começou a ver a vanguarda como uma de suas funções inelutáveis.

Havia certas ironias. Dentre as mais cretinas, estava a reclamação de que, por causa de seus empregos e de sua estabilidade, esses teóricos vanguardistas integravam confortavelmente a classe média – uma reclamação que ignora a longa tendência da sociedade ocidental moderna de remunerar os seus críticos. A ironia mais forte era que, ao transformar-se em um mecanismo para a crítica, a academia deixara de acreditar no objetivo da sociabilização – formar bons cidadãos –, que ainda era uma de suas funções. (Como apontou Richard Rorty, o preço que a educação de ensino superior pagou para que tal ironia deixasse de ser examinada foi ceder o ensino médio aos conservadores). No centro dela, estavam os estudantes de Liberal Arts, encarregados da missão de aprender a criticar as normas sociais antes de vivê-las de forma plena ou consciente. É muito significativo, do ponto de vista social e estético, que boa parte do realismo virtuoso produzido recentemente tenha sido escrito por autores que, naquele momento, eram estudantes de graduação, muitas vezes nos lugares onde a Teoria mais gozava de prestígio.

Para refutar as acusações de que o realismo era uma fonte de conhecimento crítico – seja o conhecimento à maneira do naturalismo seco de Zola ou aquele mais psicológico do lema de Henry James, “Tente ser uma dessas pessoas em quem nada se perde” –, a Teoria fez uma jogada sorrateira ao reivindicar para si a voz da crítica verdadeira. A crítica ao realismo – à ingenuidade de sua fé na representação; à sua cumplicidade com as narrativas culturais banais – foi atenuada pela admiração oculta que os próprios teóricos, inclusive os mais canônicos, nutriam por ele. Lembre-se de Barthes falando sobre Flaubert, Deleuze ou Kristeva falando de Proust, Adorno de Balzac, Jameson de Gissing. Jameson, em particular, dedicou-se a explicar pacientemente como o realismo serviu, em um determinado momento histórico, a uma função crítica, por mais que esse seja agora um momento distante.

Para os estudantes, não era necessário refletir muito para perceber que o realismo era digno de certa compaixão. Rejeitado por ser (escolha sua opção preferida) politicamente inerte, burguês, retrógrado; só mais uma série de códigos e convenções; comportado e ridículo como o noticiário da TV local. Ou, pior de tudo, absolutamente middlebrow, o realismo não rivalizava nem com o vanguardista charmoso, cujo visível desdém pelos demais convidados atrai olhares de admiração, nem com o romancista típico, cuja gargalhada quebra o gelo da sala. Uma preocupação com os problemas cotidianos, um interesse pelo lirismo limitado pelas convenções sintáticas, algum humor sarcástico, um pouco de adultério ou uma dívida: ninguém tinha o antiquado romance realista como primeira opção para levar para casa. A não ser que tivesse a Teoria como companheira, ele não parecia capaz de nos oferecer alguma crítica ou de nos levar de um significado a outro.

No final dos anos 1990, aequação simples oferecida pela Teoria – o realismo é uma ferramenta da racionalidade capitalista, uma ferramenta do status quo; um produto, e não um artefato imaginativo – soava como um truísmo. Mas, quando um argumento torna-se truísmo, é bem provável que uma resposta a ele já se encontre a caminho. As correções forneceu uma versão incipiente dessa resposta. Não é difícil detectar o afeto subjacente pela Teoria no trechoem que Franzen descreve a liquidação radical, promovida por Chip. A Teoria ainda é uma presença constitutiva nesses romances; é evidente que são histórias sobre reificação, alienação e, particularmente, sobre o capitalismo tardio – um termo explorado de forma obsessiva, ainda que cuidadosa. Mas, ao menos para os estudantes, ex-estudantes e acadêmicos, em2001 a Teoria já havia se tornado parte inseparável de suas vidas – algo que eles não precisavam justificar para ninguém, mas que ao mesmo tempo era vagamente revolucionário. Ela já não era mais uma chave para todas as coisas do mundo, mas meramente uma das coisas do mundo. É precisamente sobre essa banalização que Franzen reflete: ao virar rotina, a Teoria se transformou de objeto de medo, sátira ou veneração em um elemento ficcional. E o romance, especialmente o do tipo que se baseia no detalhamento social e nos destinos individuais (e, no caso de Franzen, no núcleo familiar burguês), estava louco para arrumar briga e tentar reconquistar seu prestígio obscurecido.

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Portanto, não é pouca coisa que muitos desses romances assumam a forma do bildungsroman (romance de formação), o mais antigo dos formatos realistas. A inocência ferida da Tassie de Lorrie Moore e a imaturidade da Mindy de Jennifer Egan são passos paradigmáticos na iniciação à Teoria. Primeiro, é preciso se acostumar a um estilo (de despreocupação, combinações estranhas, rejeição das convenções da classe média); depois, é preciso aprender a usá-lo para compreender seu próprio processo de amadurecimento. François Cusset cunhou o termo bildungstheorie (teoria da formação) para descrever como a Teoria opera na cena americana, e Moore e Egan (nenhuma das duas escreveu romances explicitamente sobre Teoria; seus romances são claramente uma forma moderna de bildungsroman) sabem que agora a Teoria é, para um tipo específico de pós-graduados em universidades americanas, parte da sociologia da adolescência tardia. A Teoria é engolida pelos mesmos processos ordinários de desenvolvimento com os quais tantas vezes buscara romper.

Essa é uma das maneiras pelas quais o realismo contemporâneo se vinga da Teoria: narrando-a apenas como uma parte qualquer do amadurecimento de um americano que frequentou a universidade. A vingança, no entanto, assume formas e contornos interessantes. A trama do casamento, de Eugenides, é um livro cheio de detalhes que, por serem apresentados com um humor muito sutil, parecem tão satíricos quanto carinhosos: o ex-professor de Nova Crítica que havia “encontrado Roland Barthes em um jantar social e sido convertido à nova fé em meio a garfadas de cassoulet”; o estudante que, no seminário de semiótica, proclama: “Na verdade, estou achando difícil me apresentar, porque toda a ideia de apresentações sociais é tão problematizada”; a protagonista do romance esperando ansiosamente ouvir a pronúncia correta de nomes que, até então, eram apenas signos opacos (“Bart. Então era assim que se pronunciava.”). Aqui, Eugenides combate a Teoria em um registro ainda mais eficaz que a sátira de Franzen: a nostalgia. O que você faz com a Teoria quando a trata com afeto? Você a transforma em uma das maravilhosas besteiras da juventude: tão bom tê-las cometido; tão bom tê-las deixado para trás.

O romance de Eugenides está impregnado de afeição: por seu tempo, seus personagens e suas ideias. E seus personagens são notadamente afetuosos uns com os outros, como se já se imaginassem em um futuro anterior cor-de-rosa. Mas esse afeto não se repete nos outros romances recentes da Geração Teoria. Partindo de outras perspectivas, parece menos razoável olhar para trás com ternura, pois a Teoria e o pensamento originado por ela ainda estão presentes, ainda perseguem os personagens, ainda intervêm de maneira inconveniente no intervalo entre a cognição e a ação. Talvez seja nesses casos que o romance sobre leitores de Teoria ganhe sua maior força. Para pegar três exemplos recentes e excelentes: os protagonistas de The Ask, Cidade aberta e Leaving the Atocha Station, de Ben Lerner, não vivem os enredos clássicos de enamoramento e de formação, tão sabiamente empregados em A trama do casamento, porque se tornaram tão desconfiados da própria trama que rejeitam qualquer espontaneidade. Eles andam de um lado para o outro; mudam o tempo todo de bairro, cidade, trabalho e relacionamento; suas experiências só se dão através de uma cortina de ironia.

Esses são romances sobre consumidores. Essas são pessoas que compram livros, particularmente livros sobre livros. É típico que, nas primeiras páginas de Cidade aberta, Julius, o narrador, visite seu orientador dos tempos de faculdade, um professor nipo-americano especializado em literatura medieval, e então siga para a liquidação final da Tower Records do Lincoln Center e torre seu dinheiro em CDs de música clássica. Essas são pessoas de mente aberta – sua ação característica é absorver, escolher, avaliar, rejeitar. Uma das coisas que estão escolhendo é o seu ponto de vista para assimilar o mundo. A Teoria não parece futurística nesses romances; em um tom ligeiramente diferente daquele da trama do casamento, mas com uma dinâmica temporal parecida, ela parece tardia, como uma voz do passado que não provoca nada além de insatisfação.

No entanto, o consumo não é exatamente o xis da questão. O que une o Milo de Lipsyte, o Julius de Cole e o Adam de Lerner – este um poeta que passa um ano extraviado na Espanha, na época do atentado no metrô de Madri, em 2004 – é o quão fundamentalmente sintomáticos eles são. A Teoria lhes ensinou a ler o mundo como um conjunto de signos enganadores; reflexivos, eles duvidam das mensagens dos outros. (E nem sempre estão errados em fazê-lo). O Adam de Lerner até pondera sobre a impossibilidade que essa condição cria para o romance:

E quando eu lia o New York Times on-line, e era sempre o dia mais sangrento desde o início da invasão, eu me perguntava se a incomensurabilidade da linguagem e a experiência eram novas, se a minha experiência da minha experiência emergia de uma vida lesada de pornografia e privilégios, se havia tempos felizes em que o céu estrelado era o mapa para todos os caminhos possíveis ou se essa divisão da experiência entre o que não podia ser nomeado e o que não podia ser vivido era, simplesmente, a experiência, para todas as pessoas em todos os tempos. De qualquer forma, prometi a mim mesmo que nunca escreveria um romance.

As referências à Minima moralia de Adorno (“vida lesada”) e à Teoria do romance de Lukács (“tempos felizes”) não são meros penduricalhos, mas sim aspectos essenciais desse dilema: Adam havia sido minuciosamente educado em uma escola de sintomatologia e, como resultado, os fenômenos do mundo haviam se tornado uma série de signos, e não mais expressões ou mensagens. Em Cidade aberta, Julius vê Nova York como se ela sofresse da neurose de ter reprimido seu passado violento e escravocrata, que sua formação o faz desmascarar constantemente; ele confunde um “lençol de lona escura preso a um andaime e rodopiando ao vento” com o “corpo de um homem linchado pendurado em uma árvore”. O romance de Lerner gira incansavelmente em torno de experiências artísticas (recitais de poesia, visitas a museus, músicas ouvidas por acaso) que provocam apenas a dolorosa percepção do quanto é impossível sentir-se absorvido por elas, como se o que a arte fornecesse hoje em dia fosse apenas uma ocasião para ruminar sobre a ausência de encantamento. Em um tom obviamente mais cômico, Eugenides mostra seus personagens tropeçando de forma incansável em seu autoceticismo:

O mais preocupante era que Mitchell tinha que se perguntar a si mesmo se não estava apenas sendo tão automático em sua resistência às acusações de misoginia quanto as acadêmicas feministas eram ao generalizá-las, e se a sua resistência não significava que, bem no fundo, ele era de fato propenso à misoginia. No fim das contas, por que era mesmo que ele tinha comprado um exemplar de Paris é uma festa? Por que, sabendo o que ele sabia a respeito de Claire, ele havia decidido tirá-lo da mochila, como se quisesse esfregá-lo na sua cara naquele instante? Aliás, por que o termo “esfregar” acabara de vir à sua cabeça?

Um impulso analítico incansável e voltado para a natureza instável dos signos é a marca constante desses romances; mas trata-se de um impulso descrito, e não reproduzido. O realismo depende da crença na confiabilidade dos signos, por mais tênue que ela seja. Não é uma crença que esses protagonistas podem compartilhar facilmente, e por isso eles veem seus próprios romances de maneira desconfortável. No caso do Julius de Cole, cujo romance acaba por revelar um alçapão sinistro, pode ser que eles nem sequer estejam cientes dos elementos mais importantes de suas próprias histórias.

“Na verdade, estou achando difícil me apresentar, porque toda a ideia de apresentações sociais é tão problematizada”: é uma boa piada. A semiótica era uma introdução exemplar à Teoria porque ela podia diagnosticar tão cruamente as convenções sociais (algumas como inócuas, outras como nocivas) que regiam até mesmo os menores aspectos da vida cotidiana; e outras vertentes da Teoria explicavam, e ainda o fazem, a maneira como essas convenções passaram a existir. Uma vez que você aprendia essa prática de pensamento e a transformava em hábito, era difícil esquecê-la. Você jamais poderia ler a Teoria de forma tão literal quanto o pobre estudante de semiótica de Eugenides; mas, se você dedicasse a ela mais que um simples momento de atenção relutante, ela o transformaria.

Ela também poderia transformá-lo em um espectador, um cético total, cuja vida afetiva fora diluída. É aí que o realismo da Geração Teoria intervém para retificar o balanço final, ou ao menos para descrever o dilema. É uma estranha incumbência para a ficção realista. Mas se a morte do autor, aprendida por esses autores em seus anos de faculdade, incitou uma resposta (Ainda estamos aqui!), ela incitou também uma nova lógica para uma velha forma: explorar as consequências – na urgência perdida, nos sentimentos perdidos ou na expressividade perdida – de uma vida vivida como uma série de sintomas a serem lidos.

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Teju Cole e Ben Lerner são mais jovens que a primeira leva de romancistas da Geração Teoria, e dá para perceber a diferença. Em termos formais, seus romances são ainda mais livres que os de Franzen, Lipsyte ou Moore; são mais líricos e solitários em suas narrativas em primeira pessoa, menos afeitos à comédia de conflito social. Eles ecoam os devaneios em monólogo dos romances de formação conscientemente fracassados de um século atrás: Tonio Kröger, de Thomas Mann, O jovem Törless, de Robert Musil, Os cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke (e não é irrelevante que Lerner seja mais conhecido como poeta), O bosque das ilusões perdidas, de Alain-Fournier, O desaparecido ou Amérika, de Kafka, e Retrato do artista quando jovem, de Joyce. Desajustados eruditos, céticos e de boa formação que, ao levar sua educação a sério demais, se tornaram inaptos para receber as supostas recompensas da educação: esses personagens representam uma crise social da maturidade, na qual as lições da escola – estudos clássicos, militarismo, teologia escolástica, Kultur – já não se conectam a uma forma eficaz de socialização. É o que ocorre com o Julius de Cole e o Adam de Lerner: desconfiados e livrescos, eles são excelentes produtos da Teoria, na medida em que foram profundamente aculturados pela cultura do antiaculturamento. Eles não demonstram ter a esperança de que sua formação os tenha preparado para o mundo diante de si. Quando os personagens de Eugenides ou Lipsyte são surpreendidos por essa disjunção, eles a veem como um axioma.  Lipsyte é um mestre contemporâneo do discurso retórico; já Cole e Lerner pendem para o devaneio.

Tonio Kröger diz a respeito de sua situação: “Estou entre dois mundos. Não me sinto em casa em nenhum dos dois, e por isso eu sofro.” Isso pode servir como um lema para qualquer um dos romances da Geração Teoria. Apesar de suas várias discordâncias internas e de seu excesso cômico, a Teoria era não apenas sintomática, mas também utópica – ensinava a interpretar o mundo e, ao fazê-lo, mostrava um caminho para mudá-lo. Se ela buscava sociabilizá-lo de alguma maneira, tratava-se de uma sociabilidade voltada para o distinto mundo futuro: um mundo de diferenças genuínas confrontadas de maneira genuína, um mundo menos servil aos falsos deuses da Normalidade e da Patologia, um mundo que seria mais transparente e, consequentemente, menos doloroso. Esses romances nos lembram, cada um à sua maneira e com o seu pesar, a utopia da Teoria por meio da escrita de seu epitáfio.

Afinal, o que a Teoria faz por seus antigos alunos nesses romances? Ela não os preparou para um novo mundo; em vez disso, ela lhes deu uma maneira de sobreviver apenas precariamente no antigo. Tendo aprendido devidamente a crítica pós-estruturalista das posições – as exclusões e os apagamentos necessários para que qualquer “posição” se torne possível –, antes de mais nada, eles são flexíveis, admiravelmente irônicos, sem qualquer compromisso. Seus romances os situam em limbos temporais que prometem apenas mais limbos temporais ainda por vir. O Milo de Lipsyte, tendo há muito abandonado a pintura, perde seu emprego no terceiro setor e acaba trabalhando para um pequeno empreiteiro. O Adam de Lerner desfruta de uma bolsa de estudos, sem muito interesse, e depois disso retorna aos Estados Unidos sem ter certeza de nada. Em vez de desmoronar, a indústria da música, que é tema do livro de Egan, encolhe silenciosamente, passando pelo que Mindy poderia chamar de um ajuste “estrutural”. A Teoria, no fim das contas, é menos intelectualmente poderosa que emocionalmente útil; ela o acostuma à existência precária e anômica à qual você já estava destinado de qualquer forma. No fim das contas, era como uma droga: não alucinógena, nem capaz de expandir sua mente; uma droga de efeito sedativo prazeroso.

Por que, nesses personagens, desdenha-se tanto da educação humanística? Porque o hábito deles de tudo analisar e diagnosticar é derrotado não pelos segredos diabolicamente bem codificados do Capital ou do Poder, e sim anulado por um mundo sem nenhum segredo ou sintoma. Quem precisa revelar os códigos por meio dos quais a ideologia fala, quando a ideologia fala de forma clara? Quando o poder prescinde de álibis? Ou quando o poder ganha a forma de Purdy, o amigo de faculdade de Milo que se tornou um capitalista influente e fala de sua gangue dos anos de faculdade assim:

Todos eles vão achar que são especiais e que sofrem de modos diferentes, mas todos eles estão passando pelo mesmo funil histórico-mundial. Eles vão tentar profissionalizar suas paixões, ou simplesmente arranjar um trabalho. Alguns se sairão melhor que outros. Alguns não vão precisar se sair melhor graças a seus fundos de garantia. À parte seus estilos estéticos, muitas vezes radicalmente diversos, para não falar de política, fundamentalmente eles são iguais.

Esqueça as superfícies e os códigos, esqueça os sintomas e os estratagemas ideológicos, esqueça os segredos e as conspirações: a maneira como esses personagens são explorados, usados, manipulados e descartados é tão óbvia quanto são suas necessidades demasiadamente humanas de um pouco de conforto, um pouco de adaptação e um pouco de segurança. Nesse tipo de mundo, um lugar menos seguro e cortês que aquele onde eles foram educados, a hermenêutica raramente se configura como uma ferramenta; ela é, na melhor das hipóteses, uma prática de autoconsolação. Ela lhe permite pensar que, quando falam com você de um determinado modo, alguma outra coisa pode estar acontecendo. O humor negro – o humor que o realismo sempre soube fazer muito bem – está no fato de que não há nada mais acontecendo: o cinismo do poder não é mais cínico que isso.

Tal inversão poderia ser uma das ironias típicas desses romances: a Teoria estava certa o tempo todo, mas da maneira errada. “Capitalismo tardio”: há algum conceito mais pertinente para descrever o desenrolar da vida de Milo? “Discurso”: como a Madeleine de Eugenides lentamente aprende, ele é uma taquigrafia útil para a ilusão de sermos únicos, particularmente únicos em nossa habilidade de dissecar os discursos sociais. “Vida lesada”: nenhum outro termo expressa tão bem a mágoa de Adam, que inventa álibis fictícios para os outros – como o “fascismo” de seu pai, um homem bondoso e liberal do Meio-Oeste – com o objetivo de produzir sintomas que não existem de fato. Suas narrativas confirmam aquilo que eles aprenderam, mas de um jeito muito mais literal. Já que tiveram uma formação requintadamente cara, com uma estrutura mental elegantemente desconstrutiva, o que eles precisavam era ter confiado nas lições mais redutoras, objetivas e brutalmente simples da Teoria. É um alerta engraçado e eminentemente realista: esqueça a hermenêutica da desconfiança. Lembre-se do que você sempre suspeitou – do que, olhando ao redor, você não consegue deixar de suspeitar. Seja uma dessas pessoas em quem nada, nem mesmo a Teoria, se perde.

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Tradução de Bruno Mattos

3 respostas para A geração teoria – por Nicholas Dames

  1. inara disse:

    Ops… tradutor: atenção para a troca entre o pronome “o” (objeto direto) e “lhe” (objeto indireto). Não sou purista, mas, definitivamente, soa mal…

  2. Pingback: A trama do casamento, Jeffrey Eugenides | Livros abertos

  3. sergio hespanha disse:

    Uau!
    Mas se a Teoria ou alguns por ela exageram na desconfiança, penso se, diversamente, é o caso de confiar ou, menos, somente aceitar. Existem erros na análise de tudo e em sua profundidade, mas não se vive sem análise alguma, pois as coisas não permanecem e é preciso atualizar o conhecimento do que se apresente como novo.
    É mais fácil fazer esta crítica da Teoria desde o ponto de vista do que ela fez com/na literatura. Esta é ela mesma fundamentalmente ‘teórica’; discursiva.
    Fora da literatura, a própria realidade prática impõe maiores limites aos ‘excessos teóricos’.

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