O de Opacidade

 

 

ALFABETO serrote

“Mova-se com cuidado para não levantar sedimento” é um dos mandamentos do mergulho esportivo em navios nau­fragados. Se um dos pés de pato, parte da roupa que nos torna uma espécie lenta e monstruosa de peixe, esbarra em qualquer superfície do barco, a matéria orgânica des­perta e a água fica turva.

O mesmo acontece no mergulho em cavernas. A visibi­lidade pode chegar a níveis muito baixos. Por isso, é pre­ciso usar cordas, cabos e estar preparado para sair às cegas. No mar de Coral, na Austrália, acontece o oposto: é um dos locais mais transparentes do ambiente água. Quarenta metros de visibilidade e a ilusão de que chegamos a respos­tas satisfatórias, temos domínio sobre a nossa condição.

“Esbjerg, na costa”, de Juan Carlos Onetti, é uma história sobre a opacidade.

De saída, o narrador nos coloca dentro de uma situação: um casal, Kirsten e Montes, caminha pelo cais, observando a partida dos barcos. O narrador fica sabendo da his­tória que vai nos contar “sem entendê-la direito” numa manhã em que Montesvai ao seu escritório e, humilhado, confessa que o roubou. Montes, “um coitado, um amigo sujo, um canalha”, diz que escondera dele uma série de apostas para bancá-las por conta própria, e que agora não podia pagar o que perdeu. Fez isso para conseguir dinheiro para uma viagem, a da mulher, Kirsten, a seu país natal: a Dinamarca.

Mas o plano não dá certo. “Acho que Montes me contou a história, ou quase toda, no primeiro dia, quando veio me ver, com o rabo entre as pernas, a cara verde e um brilho de suor gelado, nojento, na testa e nos flancos do nariz.” Mais que sinalizar a não confiabilidade do narrador – “fiquei sabendo da história, sem entendê-la direito”; “acho que Montes me contou a história, ou quase toda” –, Onetti vai fazer da opacidade (de tudo-aquilo-que-não-se-pode-ver-ou­-entender) o tema secreto do conto.

Esbjerg é uma cidade portuária, na Dinamarca. Apresenta-se como um lugar obscuro, enigmático. Kirsten, a mulher de Montes, vive triste e não diz por quê. Enche a casa de fotografias da Dinamarca, paisa­gens com vacas, montanhas. Depois, come­çam a chegar cartas daquele país. Montes não entende uma palavra do que está escrito nelas, e Kirsten diz que “havia escrito para uns parentes distantes e que agora as respos­tas estavam chegando, embora as notícias não fossem muito boas”. Há uma frase – em dinamarquês, o idioma da opacidade – que Kirsten repete, e isso é o que mais impres­siona Montes. Ele não entende (nós tam­bém não), mas é contagiado pela vontade de chorar que brota da voz dela. “Deve ser, acho, porque a frase que ele não conseguia entender era a coisa mais distante, mais estrangeira, aquilo que vinha da parte des­conhecida dela”, especula o narrador.

Depois que o plano de Montes naufraga, Kirsten passa a sair sem dar explicações. Sai o tempo todo, sem dizer nada. Um dia, Mon­tes a segue. O destino de Kirsten é o porto – onde fica por muitas horas, rígida, olhando na direção da água. O relato termina com Kirsten e Montes, lado a lado, observando as partidas dos navios, “cada um pensando em coisas bem diferentes e ocultas”, uma sen­sação – e aqui a frase se afasta do narrador, e ouvimos puro Onetti – de que “estamos sozinhos, sempre um assombro quando paramos para pensar”. Ao final, a impressão é a de que também não podemos conhecer o homem que narra, e de que a história do casal serve como uma cortina de água suja entre nós e o narrador. O que Onetti parece dizer é: não podemos ver. Nenhuma proximidade nos permitirá decifrar além da incerteza os pensamentos do outro. Não é possível chegar a respostas satisfatórias.

Em física, opacidade é o conceito mais usado para calcular quão determinado meio é penetrável/impenetrável a uma onda (ele­tromagnética ou não). A luz, por exemplo. Um meio opaco não deixa a luz ser transmi­tida integralmente; ele a absorve, refrata ou reflete. Como consequência, a intensidade do feixe de luz decai num meio opaco, sem que ele alcance integralmente “o outro lado”.

Contemporâneo de Onetti, Michel Leiris acreditava que a atividade literária “não pode ter outra justificação a não ser ilumi­nar certas coisas para si próprio ao mesmo tempo que elas se tornam comunicáveis para outrem”. Em “Da literatura como tauroma­quia”, espécie de introdução a seu projeto confessional, Leiris escreve: “Pretendia eluci­dar certas coisas ainda obscuras para as quais a psicanálise, sem torná-las inteiramente cla­ras, havia despertado minha atenção quando a experimentei como paciente”. Expressões como “iluminar”, “comunicar”, “elucidar” e “tornar claro” dão uma ideia de como a Onda Eletromagnética Leiris interage com o meio A Linguagem de Michel Leiris (clara, sem ênfase, pretensamente não literária).

Na interação da Onda Onetti com A Lin­guagem de Juan Carlos Onetti (turva, descontínua,  não linear), a busca por respostas, salvação e esclarecimento acaba por nos conduzir a uma escuridão ainda maior – Faulkner, o irmão mais velho de Onetti, dizia que a pequena chama acesa no meio da noite escura serve apenas para que percebamos a magnitude da escuridão ao nosso redor. Aqui, podemos pensar em nosso mundo, um mundo de naufrágios e sonhos mortos, onde a visibilidade, na maior parte do tempo, para muitos de nós, é violentamente baixa. Como dar forma a esse mundo? Quanto podemos conhecer de alguém e de nós mesmos? Como mergulhar na água turva (cada dia mais turva e saturada  e comunicar esse estado?

Importante notar que a opacidade não é uma característica absoluta; ou seja, meios opacos para determinadas frequências de ondas podem ser translúcidos para outras frequências. Num exemplo simples: há vidros que são transparentes para ondas normais de luz (você consegue enxergar através deles), mas absolutamente opacos para ondas ultravioletas (que torram sua pele na Bahia ou no mar de Coral australiano . Como regra geral, isso tem a ver com a interação entre a frequência do meio e a frequência da onda que está tentando atravessá-lo. A depender do grau de sintonia entre essas frequências, a onda consegue passar ou é barrada.

Um dos lemas da Onda Leiris era: “rejei­tar a fabulação” e só admitir como material “fatos verídicos, e não apenas fatos verossímeis  como na narrativa clássica”. Leiris desejava colocar em movimento um realismo “não fingido como geralmente nos romances”, mas feito de “coisas vividas e apresentadas sem o menor disfarce”. De certo ângulo, isso parece conectado ao nosso tempo. Podemos pensar em autoficção, tramas que aproveitam fatos reais e biográficos como um valor em si, o inte­resse pela vida privada, diários devassa­dos e expostos publicamente, narrativa confessional, nossa vida diligentemente psicanalisada (a épica da subjetividade), a pressuposição de que há correspondência entre nossa percepção do mundo (“nossas verdades”) e o mundo em si, a crença numa ilusão de transparência – no campo de atualização de status do Facebook, somos convocados a compartilhar: “No que você está pensando?”.

Se são muitos os caminhos que nos levam à encenação da transparência (à diluição do gesto autobiográfico de Leiris), Onetti é uma espécie de mestre zen da opacidade – sua figura reforça isso: sempre na cama, deitado, fumando, escrevendo em pequenos pedaços de papel, com os lençóis cheirando a gim de má qualidade. No entanto, a entrada nesse mundo de água turva não se dá por meio do fantástico ou do mágico, como em parte de seus contemporâneos latino-americanos. Os contos mais inesquecíveis (e dolorosos) de Onetti – “Um sonho realizado”, “O inferno tão temido” e “A face da desgraça”, além de “Esbjerg, na costa” – são narrativas realistas, que dialogam de maneira sofisticada com o modernismo, mas sem deixar-se escra­vizar. Há na Frequência Onetti, na sua inte­ração com a Linguagem Onetti, um jogo de afirmação e negação do real – uma corrente subterrânea que parece conectá-lo a Bolaño (e a Borges). Isso se dá principalmente porque dentro das histórias há sempre alguém que: conta, imagina, inventa, recorda. Ou seja, os mecanismos da memória, da invenção involuntária, da ignorância parcial e da desfiguração do tempo são parte do que se narra.

Quando lemos (a vida, os livros), o que buscamos é que as coisas se esclareçam. Queremos que o feixe de luz alcance o outro lado. Queremos ver e entender – o que nos dá uma sensação inequívoca de con­forto e felicidade. É isso que nos faz avan­çar num romance, por exemplo: a busca por um motivo, uma lógica, um propósito. A vida, de forma geral, também funciona assim. Todavia, é inevitável, há coisas que não podemos ver. Há pontos cegos, ris­cos, distorções.

Como no mergulho em navios naufra­gados, tudo acontece entre a opacidade e a transparência. Podemos contrapor essas duas categorias para fins práticos e esté­ticos, mas a verdade é que uma coisa não existe contra a outra. À nossa revelia, elas convivem, o tempo todo. Por isso, pode parecer paradoxal, mas Onetti, apesar de sua eventual não linearidade, da tempo­ralidade turva de suas histórias – ou talvez justamente por isso –, é um escritor trans­parente. É transparente em sua tentativa de encenar a opacidade. Nele, conseguimos enxergar que não podemos enxergar.

 

 

Escritor e editor, EMILIO FRAIA (1982) é autor, com Vanessa Barbara, do romance O verão do Chibo (Alfa­guara, 2008) e, em parceria com DW Ribatski, da graphic novel Campo em branco (a ser publicada neste ano pela Companhia das Letras). Foi selecionado como um dos 20 melhores jovens escritores brasileiros pela Granta.

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