Sobre os ensaístas de periódico – por William Hazlitt

Sobre os ensaístas de periódico
por WILLIAM HAZLITT

De como uma geração de ingleses recriou no século 18 a forma inventada por Montaigne, aplicando a liberdade de julgamento à vida cotidiana, promovendo o encontro entre o filósofo e o fofoqueiro

É pelo homem que se estuda a humanidade.
Alexander Pope

Passo agora a falar sobre essa espécie de escrita que tem sido cultivada com tanto êxito neste país pelos nossos ensaístas de periódico, e que consiste em aplicar os talentos e recursos intelectuais em toda aquela variada gama de assuntos humanos que, apesar de não pertencerem a nenhuma arte, ciência ou profissão habituais, são do conhecimento do escritor e “afetam profundamente os afazeres e o âmago dos homens” [1].Quicquid agunt homines nostri farrago libelli [2] é o mote geral deste tipo de literatura. Não trata de minérios ou fósseis, dos efeitos das plantas ou da influência dos planetas; tampouco se intromete nas formas de crença ou nos sistemas filosóficos, nem mesmo no mundo espiritual; mas torna familiar o mundo de homens e mulheres; registra suas ações; assinala seus motivos; exibe seus caprichos; caracteriza suas atividades em toda a sua singular e infinita variedade; ridiculariza seus absurdos; expõe suas inconsistências, “exibe um espelho à natureza, mostra ao corpo e à idade do tempo a impressão de sua forma” [3]; toma nota de nossas vestimentas, ares, fisionomias, palavras, pensamentos e ações; mostra-nos o que somos e o que não somos; exibe diante de nós todo o teatro da vida humana e, ao nos tornar espectadores esclarecidos de suas cenas multicoloridas, nos dá (quando possível) a capacidade de nos tornarmos agentes razoavelmente sensatos nas cenas em que temos um papel a representar. “A parte prática da vida/aqui domina tudo o que é teórico.” [4] É o melhor e o mais natural campo de estudo. Ele está para a moral e os costumes assim como o experimento está para a filosofia natural, em oposição ao método dogmático. Não negocia com cláusulas severas sobre proscrições e anátemas, mas com distinções sutis e criações liberais. Suas apreciações gerais são feitas a partir de detalhes, suas poucas teorias a partir de fatos diversos. Não tenta provar, como bem entende, que tudo é preto ou branco, antes espalha aquelas cores intermediárias (que na maioria das vezes não são desagradáveis), pois as encontra “na teia de nossa vida, que é composta de fios misturados: de bens e de males” [5]. Investiga a vida humana como ela é e como tem sido, para então mostrar como deveria ser. Antes de se atrever a distinguir o certo do errado, isto daquilo, ele persegue a vida nas cortes e nos acampamentos; na cidade e no campo; nos divertimentos rurais e nas disputas entre eruditos; nos muitos matizes do preconceito ou ignorância, do refinamento ou barbárie; nos refúgios privados e nos cortejos públicos, em sua fraqueza e pequeneza, em suas ocupações e práticas. De fato, como poderia ser diferente?

Quid sit pulchrum, quid turpe, quid utile, quid non,
Plenius et melius Chrysippo et Crantore dicit
. [6]

Os escritores sobre os quais me proponho a falar, se não são filósofos morais, são historiadores morais, o que é melhor. Ou, quando são as duas coisas, têm o caráter de um moldado sobre o do outro. Suas premissas precedem suas conclusões; e damos créditos aos seus testemunhos, pois sabemos que são verdadeiros. Montaigne foi o primeiro que, com seus Ensaios, abriu caminho entre os modernos a esse gênero de escrita. O grande mérito de Montaigne foi o de ter sido o primeiro a ter a coragem de dizer, como autor, o que sentia como homem. E, já que a coragem frequentemente é o efeito de uma força consciente, ele provavelmente foi levado a se expressar desse modo pela riqueza, verdade e vigor de suas próprias observações sobre livros e homens. Foi, no sentido mais verdadeiro, um homem de mente original, isto é, dotado do poder de ver as coisas por si mesmo ou como elas realmente são, em vez de confiar e repetir cega e credulamente o que os outros lhe disseram a respeito delas. Descartou o palanquim de preconceitos e afetações, com os cacarecos de erudição aderidos ao calcanhar, porque podia caminhar com os próprios pés. Ao segurar a pena, não se pretendeu filósofo, homem de espírito, orador ou moralista, mas foi um pouco de tudo isso pela simples ousadia de dizer, em sua pura simplicidade e força, o que quer que lhe passasse pela cabeça e que considerasse digno de ser comunicado. Não se incumbiu da tarefa de dizer, por intermédio da figura abstrata de um autor, tudo o que pode ser dito sobre um tema, mas disse tudo o que sua habilidade de inquiridor da verdade lhe fez conhecer. Não foi pedante, tampouco fanático. Não se supunha conhecedor de todas as coisas, tampouco acreditava que todas as coisas devessem se conformar à sua fantasia ou ao que supostamente devessem ser. Ao falar dos homens e de suas maneiras, tomou-os tais como os encontrou, e não segundo uma noção preconcebida ou dogmas abstratos; e começou nos ensinando quem ele era. Ao examinar os livros, ele não os comparou a regras e sistemas, mas nos contou seus gostos e aversões. Seu padrão de excelência não seguia “a escala exata” [7] de Aristóteles, tampouco se afastava de uma obra que serve para algo, porque “nenhum dos ângulos, nos quatro cantos, era um ângulo reto” [8]. Em outras palavras, Montaigne foi o primeiro autor não fazedor de livros e o primeiro que escreveu não para converter os outros a crenças e preconceitos estabelecidos, mas para satisfazer a própria mente com a verdade das coisas. Sob esse aspecto, ficamos na dúvida de quem tem mais charme: o autor ou o homem. Há uma indizível franqueza, uma sinceridade e um poder naquilo que ele escreve. Não há ali nenhum esforço de se impor ou de dissimular; nenhum malabarismo ou palavreado solene; nenhuma tentativa laboriosa de afirmar que está sempre certo e os outros, errados; diz o essencial, expõe tanto o que paira na superfície quanto o que se oculta na profundeza de seus pensamentos, e merece a descrição que Pope fez dele quando disse que:

– extravasa tudo francamente
Direto como Shippen ou como o velho Montaigne. [9]

Ele não conversa conosco como um pedagogo conversa com seu pupilo, a quem deseja transformar num cabeça-dura igualzinho a si mesmo, mas como um filósofo e amigo que passou pela vida com pensamentos e observações e que agora se dispõe a ajudar os outros a passar por ela com contentamento e proveito. Um escritor desse timbre, devo dizer, parece-me muito superior ao simples rato de biblioteca, assim como uma biblioteca de livros reais é superior a uma mera estante de livros pintados com os títulos de obras célebres gravados nas lombadas. Por ter sido o primeiro a abrir caminho nessa nova maneira de escrever, o mesmo impulso forte e natural que o impeliu a dar início ao seu empreendimento o conduziu ao fim de sua caminhada. A mesma força e honestidade de espírito que o urgiu a se libertar dos grilhões do costume e do preconceito fez com que triunfasse sobre eles. Deixou muito pouco a ser alcançado por seus sucessores em matéria de especulação justa e original sobre a vida humana. Quase tudo o que se pensou nos dois últimos séculos sobre aquilo que os franceses chamam de morale observatrice já estava nos Ensaios de Montaigne; ao menos o germe já estava lá, mas em geral havia bem mais do que isso. Semeou e limpou o terreno mesmo onde outros haviam colhido o fruto; ou cultivou e embelezou o solo com mais esmero e perfeição. A mais ninguém o antigo adágio latino se aplica melhor do que a Montaigne: “Pereant isti qui ante nos nostra dixerunt[10]. Não houve novo impulso para o pensamento desde sua época. Entre os exemplos de crítica a autores que ele nos deixou, as de Virgílio, Ovídio e Boccaccio se encontram nas apreciações de livros que ele considera dignos de leitura ou (o que dá na mesma) que acredita poder ler na velhice, e elas devem ser consideradas entre as poucas críticas dignas de serem lidas em qualquer época [11].Os Ensaios de Montaigne foram traduzidos para o inglês por Charles Cotton, um perspicaz poeta que viveu durante o reinado de Carlos II [12]. Lorde Halifax, um nobre crítico daquele tempo, declarou que “nenhum outro livro do mundo lhe dava maior prazer” [13].Esse modo familiar de escrever ensaios, livre das amarras das escolas e do ar professoral da autoria, foi imitado com êxito, quase na mesma época, por Cowley e sir William Temple em suas miscelâneas de ensaios, que são como conversas agradáveis e eruditas sobre o papel. Lorde Shaftesbury, pelo contrário, embora pretendesse alcançar o mesmo modo natural e degagé de comunicar seus pensamentos ao mundo, estragou sua matéria, por vezes valiosa, com suas maneiras, isto é, com um estilo extremamente insolente, florido, figurativo, fugaz e de uma amável condescendência para com o leitor; o que é ainda mais torturante do que a mais engomada e ridícula formalidade do reinado de Jaime I [14]. Nada aborrece mais que afetação de naturalidade ou liberdade por afetação. Uma vez quebrado o gelo e rompida a barreira que mantinha o autor à distância do senso e do sentimento comuns, não foi difícil a transição de Montaigne aos seus imitadores, nossos Ensaístas de Periódico. Estes últimos fizeram o ajuste da livre expressão de seus pensamentos às cenas mais imediatas e passageiras da vida, a tópicos temporários e locais; e com o intuito de exercer mais livremente e com menos responsabilidade o ofício desagradável de Censor Morum, eles adotaram disfarces fictícios e humorísticos, os quais, no entanto, correspondiam em grande medida aos seus hábitos e caráter peculiares. Assim, ao ocultar seus nomes e personalidades sob os títulos de The Tatler, The Spectator etc., foram capazes de nos informar melhor o que se passava no mundo; ao mesmo tempo, o contraste dramático e o ponto de vista irônico ao qual tudo era submetido adicionavam jovialidade e tempero às suas descrições. O filósofo e homem de espírito encontra o fofoqueiro, faz de si mestre “do instante mais propício à empreitada”15 e, de suas muitas andanças e voltas da vida, traz de volta para casa pequenos espécimes curiosos de humores, opiniões e costumes de seus contemporâneos, assim como o botânico traz de volta para casa diferentes plantas e sementes, e o mineralogista, diferentes conchas e fósseis, para ilustrar suas respectivas teorias e ser úteis à humanidade.

A primeira tentativa de lançar um desses folhetins neste país foi a de Steele no começo do século passado [16] e, de todos os ensaístas de periódico, The Tatler [17] (pois foi este o nome que adotou) sempre me pareceu o mais divertido e agradável. Montaigne, que propus ser o pai fundador desse tipo de escrita pessoal entre os modernos – em que o leitor é admitido nos bastidores e se senta com o escritor vestido de camisolão e chinelos –, foi o mais magnânimo e sincero egotista; mas Isaac Bickerstaff, Esq., [18] foi o linguarudo mais desinteressado dos dois. O autor francês se limita a descrever a peculiaridade de sua própria mente e constituição, e o faz com mãos copiosas e pródigas. O jornalista inglês bondosamente revela aos seus leitores o segredo dos seus afazeres, assim como o dos outros. Uma jovem senhorita, do outro lado de Temple Bar, não pode ser vista acompanhada à sua janela por metade do dia, mas sr. Bickerstaff tomou nota disso; ele é o primeiro a entender os sintomas da belle paixão que se manifestam nos jovens cavalheiros de West End. As chegadas e partidas de viúvas com suas generosas heranças, seja para enterrar seus pesares no campo ou para conseguir um segundo marido na cidade, eram registradas com pontualidade em suas páginas. Ele conhece bem as célebres beldades mais antigas, do tempo da corte de Carlos II; e o velho cavalheiro (como ele finge ser) com frequência se faz romântico ao contar “algum sucesso triste por que passara sua mocidade” [19], com um movimento oblíquo dos olhos e seus incontáveis caprichos. Ele se demora com satisfação ao recordar um de seus amores em especial, uma jovem que o deixou por um rival mais rico, em cujas frequentes censuras ao marido, por ocasião de alguma briga entre eles, dizia: “Eu, que poderia ter me casado com o famoso sr. Bickerstaff, sendo tratada desta maneira!”. O clube de Trumpet era frequentado por um grupo de pessoas quase tão dignas de nosso conhecimento quanto ele. A cavalgada da justiça e da paz, o cavaleiro do condado, o fidalgo rural e o jovem cavalheiro, seu sobrinho, que o esperou em seu gabinete com tanta presteza e cerimônia, não parecem ter fixado a ordem de suas prioridades até o momento; e eu gostaria de imaginar que o estofador e seus companheiros – que costumavam aquecer-se ao sol no Green Park e que arruinaram sua tranquilidade e suas fortunas para manter a balança do poder na Europa – tivessem a mesma chance de ser imortais do que alguns políticos de hoje. Mr. Bickerstaff é ele próprio um gentleman e um douto, um humorista e um homem do mundo, com um alto grau de sincera naïveté em torno de si. Se saísse à rua e fosse apanhado pela chuva, compensava o infeliz acidente com uma referência sobre o tema em Virgílio e concluía com um número de versos burlescos sobre a chuva na cidade. Ele nos entretém, quando escreve de seu próprio apartamento, com uma citação de Plutarco ou uma reflexão moral; com política, no Grecian Coffee-House; com poetas e jogadores, elegantes e agradáveis homens que passeiam pela cidade, em Wills’ ou em Temple. Ler as páginas do Tatler é como se tivéssemos sido subitamente transportados à época da rainha Ana, de peruca longa, cacheada e branca. Toda a nossa indumentária e nossas maneiras passam por uma agradável metamorfose. Homens finos e beldades eram muito diferentes naqueles tempos em comparação com os de hoje; reconhecemos os elegantes, os espertos e os garbosos passando pelas vitrines da loja de mr. Lilly, na rua Strand; somos apresentados a Betterton e a mrs. Oldfield por detrás do pano; tornamo-nos íntimos da personalidade e das atuações de Will Estcourt ou de Tom Durfey [20]; ouvimos uma briga na taverna sobre os méritos do Duque de Marlborough ou do Marechal Turenne; assistimos ao primeiro ensaio de uma peça de Vanbrugh ou à leitura de um novo poema de mr. Pope. O privilégio de ser assim virtualmente transportado a épocas passadas é ainda maior do que o de visitar lugares distantes e reais. Mais valeria ver Londres de 100 anos atrás do que Paris nos tempos de hoje.

Alguns dirão que encontramos tudo isso, em igual ou em maior grau, no Spectator [21]. Quanto a mim, não penso dessa maneira; ou, pelo menos, há neste um número proporcionalmente maior de lugares-comuns. Por isso, sempre preferi The Tatler a The Spectator. Talvez por ter conhecido antes ou melhor um do que o outro, meu prazer ao ler essas duas admiráveis obras não é proporcional às respectivas reputações. The Tatler tem apenas metade dos números do Spectator e, arrisco-me a dizer, quase a mesma quantidade de humor autêntico e inteligência. “Os primeiros refluxos alegres” [22] já estão lá; nele se sente mais o espírito original, o frescor e a marca da natureza. As indicações de personalidade e as tiradas de humor são mais verdadeiras e mais frequentes; as reflexões se insinuam mais espontaneamente e não se prolongam em habituais dissertações. Parecem-se mais com os comentários que surgem numa conversa inteligente do que com uma palestra. O leitor divide a tarefa da compreensão com o escritor. Steele parece ter se fechado em seu gabinete sobretudo para colocar no papel o que observou do lado de fora. Addison parece ter passado boa parte de seu tempo trancafiado em seu estúdio, prolongando e esticando ao máximo as sugestões que tomou emprestadas de Steele ou de suas próprias observações da natureza. Longe de querer depreciar os talentos de Addison, quero apenas fazer justiça a Steele, que, em minha opinião, foi de modo geral um autor menos artificial e de maior originalidade. As descrições humoradas de Steele lembram sketches ou fragmentos de uma comédia; as de Addison são antes comentários ou paráfrases engenhosas do texto original. Os personagens do clube, tanto no Tatler quanto no Spectator, foram delineados por Steele. Entre eles, sir Roger de Coverley. No entanto, Addison obteve honra imortal pelo modo como preencheu as linhas desse personagem. Quem poderia esquecer ou ficar insensível aos incontáveis e inomináveis gracejos e aos numerosos traços de sua natureza e de seu caráter inglês antigo – sua modéstia, generosidade, hospitalidade e seus caprichos excêntricos –, ao respeito pelos vizinhos e o afeto pelos criados; à paixão secreta, obstinada e irrealizável que nutria pela bela inimiga, a viúva, em quem se encontra mais do verdadeiro romance e da sincera delicadeza do que em mil contos de cavalaria (podemos ver o rubor febril em seu semblante, o balbucio de sua língua ao falar do jeito encantador dela e da “alvura de suas mãos” [23]); ao estrago que causou na caça no terreno dos vizinhos; ao discurso na bancada, para mostrar ao Spectator o que pensavam a seu respeito no campo; à sua relutância em aceitar que fosse usado como uma placa de sinalização e em ver seu semblante transformado num rosto sarraceno; à reprovação cordial a uma cigana atrevida quando esta lhe dissera que “ele teria uma viúva em seu encalço pelo resto da vida” [24]; às dúvidas sobre a existência de feitiçaria e a proteção de algumas bruxas de grande renome; à descrição de retratos familiares e da escolha de um capelão; ao dia em que, tendo dormido na igreja, reprovou John Williams, após despertar do cochilo, por conversar durante o sermão? Will Wimble e Will Honeycomb não ficam nem um pouquinho atrás de seu amigo sir Roger, em delicadeza e graça. A simplicidade encantadora e a intromissão bem-humorada de um são realçadas pela afetação graciosa e a presunção cortês do outro. Há quanto tempo travei contato com esses dois personagens no Spectator! Quão antigos são esses meus amigos, e, no entanto, nunca me cansei deles como me cansei de tantos amigos reais, nem eles se cansaram de mim! Quão etereamente essas abstrações não flutuam da pena do poeta, acima do alvorecer do nosso conhecimento da vida humana!, como fulguram nas cores mais belas na paisagem diante de nós!, como nelas permanecem puros até o fim, como um arco-íris sobre a nuvem ao entardecer, que as mãos rudes do tempo e da experiência não podem manchar ou dissipar! Uma pena que a realidade nos seja inacessível, mas, se não o fosse, o sonho acabaria. Acreditei outrora ter conhecido um Will Wimble e um Will Honeycomb, mas com o tempo eles se mostraram indiferentes; os originais, no Spectator, continuam, palavra por palavra, os mesmos de sempre. Basta virar as páginas e os encontramos ali onde os deixamos! – Deve-se observar que muitas das peças mais requintadas do Tatler foram escritas por Addison, como a Corte de Honra [25], a Personificação dos Instrumentos Musicais, e decerto quase todos aqueles artigos que formam conjuntos ou séries completas. Não sei ao certo se pertence a Steele ou a Addison, porém creio que a Steele, o retrato de família, no Tatler, de um antigo companheiro de colégio, no qual as crianças correm para receber mr. Bickerstaff à porta, e aquela que perde a corrida se vira para 0 pai e anuncia a chegada do amigo com todas as amáveis nuances de incredulidade de um garoto às voltas com Guy of Warwick e Seven Champions [26], e balança a cabeça descrente das improbabilidades nas Fábulas de Esopo. São inquestionavelmente de Steele os relatos de duas irmãs, uma que mantinha a cabeça empinada mais do que o normal graças a um par de cintas-ligas floridas, e a da senhorita casada que se queixou ao Tatler da negligência do marido, como resposta a questões domésticas a ela endereçadas. – Se Tatler não é inferior a Spectator enquanto registro dos costumes e personagens, ele o supera em interesse por suas incontáveis histórias. Muitos dos incidentes narrados ali por Steele, de partir o coração com o infortúnio alheio, jamais foram superados. Poderia me referir, por exemplo, àquele dos amantes que estavam no teatro que pegou fogo; do noivo que matou acidentalmente a noiva no dia do casamento; do caso de mr. Eustace e sua mulher; e dos adoráveis sonhos que ele tinha com sua própria amada quando jovem. A reputação de superioridade de Spectator se deve à maior seriedade de suas pretensões, suas dissertações morais e seus raciocínios críticos, motivos pelos quais me considero menos edificado por esta obra do que por outras mais leves. Sistemas e opiniões mudam, mas a natureza é sempre verdadeira. É o tom moral e didático de Spectator que nos torna predispostos a ver Addison (segundo o sarcasmo de Mandeville) como “um pároco de peruca” [27]. Muitos de seus ensaios morais são, contudo, extremamente belos e bastante felizes. Por exemplo, as reflexões sobre a alegria, sobre a Abadia de Westminster, sobre a Royal Exchange e, sobretudo, aquelas muito comoventes, do quarto volume, sobre a morte de uma jovem dama. Esses exemplos, devemos admitir, são a perfeição na arte do sermão elegante. Seus ensaios críticos não são assim tão bons. Prefiro as ocasionais seleções de Steele de belas passagens poéticas, sem qualquer afetação em analisar suas belezas, às teorias excessivamente sutis de Addison. O melhor ensaio crítico no Spectator, aquele sobre os Cartões de Rafael, do qual mr. Füssli tirou proveito com grande espírito em suas Lições, foi escrito por Steele [28]. Devo este reconhecimento a um escritor que com frequência me deixava de bom humor comigo mesmo e com as coisas que me cercavam, quando quase nada era capaz disso e quando os tomos de casuística e de história eclesiástica – dos quais o pequeno volume em duodécimo do Tatler encontrava-se rodeado e esmagado na única biblioteca à qual eu tinha acesso nos meus dias de menino – colocavam à prova seus efeitos tranquilizantes sobre mim em vão. Não faz muito tempo, tive em mãos, graças a um amigo, uma cópia original da edição in-quarto do Tatler com a lista dos assinantes. É curioso encontrar ali alguns nomes que jamais poderíamos imaginar (entre eles, o de sir Isaac Newton), e também observar o grau de interesse despertado por nomes tão diferentes; interesse esse que não era determinado segundo as regras da Herald College. Um nome literário perdura tanto tempo quanto toda a raça de heróis e seus descendentes! The Guardian, periódico que sucedeu Spectator, é inferior a ele, como se poderia imaginar.

O fraseado dramático e coloquial que constitui o traço distintivo e o maior charme do Spectator e do Tatler desapareceu em The Rambler de dr. Johnson [29]. Sobre a vida humana, não incide nem uma luz refletida de um personagem fictício, nem uma luz direta da exibição do próprio autor. Tatler e Spectator foram, por assim dizer, compostos de notas e memorandos dos eventos e incidentes de sua época, com estudos irretocáveis de acordo com a natureza, e personagens recém-saídos da vida, sobre os quais o escritor faz reflexões morais e dos quais tira proveito assim que aparecem diante dele; Rambler, por sua vez, é uma compilação de ensaios morais ou de teses escolásticas escritas sobre um conjunto de temas nos quais os personagens e os incidentes individuais atendem ao mero propósito artificial da ilustração, recolhidos para supostamente dar alívio à aridez de suas discussões didáticas. Rambler é um esplêndido e imponente commonplace book de tópicos gerais e declamação retórica sobre a conduta e as ocupações da vida humana. Nesse sentido, será difícil encontrar alguma reflexão que já não tenha sido sugerida nessa obra célebre, assim como dificilmente se encontrarão nela reflexões que já não tenham sido sugeridas e desenvolvidas por outro autor ou ao longo de uma conversa. O volume de riqueza intelectual ali reunido é imenso, todavia é mais o resultado de acumulação gradual, o produto do intelecto geral, mais trabalhado nas minas do conhecimento e da reflexão do que escavado da pedreira e trazido a lume pela indústria e sagacidade de uma única mente. Não digo que dr. Johnson tenha sido um homem desprovido de originalidade, sobretudo quando o comparamos à classe costumeira de outras cabeças, mas ele não foi um homem de pensamento original ou um gênio como Montaigne ou Lorde Bacon. Não abriu nenhum veio novo para uma mina preciosa, nem topou com pedras de tamanho e lustre incomuns. Raramente deparamos com algo que “nos põe suspensos” [30]; ele não nos obriga a pensar logo de saída. Suas reflexões estão mais para reminiscências; não perturbam a marcha comum de nossos pensamentos; prendem nossa atenção pela pompa de sua aparência e pela suntuosidade de seus trajes, mas seguem seu curso e se misturam à multidão de nossas impressões. Após fecharmos um volume do Rambler, não lembramos de nada como uma nova verdade obtida pelo espírito, nenhuma marca indelével se imprime na memória; tampouco encontramos uma passagem que encarne algum princípio ou observação com tal força e beleza que só poderíamos fazer justiça à ideia do autor citando-o com suas próprias palavras. Muitas passagens assim podem ser encontradas, por exemplo, em Burke, passagens que brilham por luz própria, que não pertencem a classe alguma, sem igual, nem cópia, e das quais dizemos que ninguém além do autor teria sido capaz de escrevê-las! Não há em Johnson nem a mesma ousadia de propósito, nem a mesma maestria de execução. Em um, o lampejo de gênio parece ter se encontrado com sua matéria compatível: a seta é lançada; o relâmpago bifurcado veste a face da natureza com sorrisos fantasmagóricos, e o trovão estrondoso retumba bem longe da ruína que ele causou. O estilo do dr. Johnson, pelo contrário, mais se parece com a imitação do ribombar do trovão em um dos nossos teatros; a luz que ele projeta sobre um tema tem o efeito deslumbrante do fósforo ou de ignis fatuus [31] de palavras. Há, contudo, uma ampla diferença entre a perfeita originalidade e o perfeito lugar-comum; não se diz que as ideias e as expressões são gastas ou vulgares quando não são inteiramente novas. A menos que se tornem inteiramente comuns, elas ainda têm valor e merecem ser repetidas; e tanto o estilo de raciocínio quanto as imagens de Johnson situam-se a meio caminho entre a originalidade surpreendente e o lugar-comum enfadonho. No pensamento, Johnson é tão original quanto Addison; mas lhe faltam a familiaridade de ilustrações, o conhecimento do caráter e o humor delicioso. – O que mais distingue dr. Johnson de outros escritores é a pompa e a uniformidade do seu estilo. Todos os seus períodos foram forjados no mesmo molde, têm o mesmo tamanho e forma e consequentemente pouco ajuste para a variedade de coisas das quais ele se propõe tratar. Seus temas são familiares, mas ele caminha por entre eles em pernas de pau. Faltam-lhe leveza e simplicidade, e seus esforços para parecer divertido nos fazem lembrar, de certa maneira, estes versos de Milton:

O elefante,
Pesadão, p’ra alegrá-los fez mais força. [32]

Suas Letters from Correspondents [Cartas dos correspondentes], em particular, são mais pomposas e pesadas do que aquilo que escreve segundo sua própria pessoa. A meu ver, após se extinguirem os primeiros efeitos da novidade e da surpresa, essa falta de descontração e a variedade de maneiras foi prejudicial à matéria. Elas provêm do poder geral não só de agradar, mas de instruir. A monotonia de estilo produz uma aparente monotonia de ideias. O que é verdadeiramente revelador e valioso se perde na ostentação e na circunlocução da expressão; pois se vemos que o mesmo esforço e a mesma pompa na dicção são concedidos tanto às partes mais triviais quanto às mais importantes de uma oração ou discurso, nós nos cansamos de distinguir entre presunção e realidade e ficamos propensos a confundir a fraseologia bombástica e de ornamentos com a falta de densidade de pensamento. Assim, devido à natureza imponente e oracular de seu estilo, as pessoas são tentadas, num primeiro momento, a imaginar que as especulações do autor são feitas inteiramente de sabedoria e profundidade; até que, descobrindo seu erro, supõem que ali não há nada mais do que lugares-comuns ocultos sob a verborragia e o pedantismo; e, nos dois casos, elas se enganam. O defeito do estilo do dr. Johnson está em reduzir todas as coisas ao mesmo nível artificial e insignificante. Ele destrói todos os matizes da diferença, a associação entre as palavras e as coisas. São infinitos paradoxos e inovações. Sua condescendência para com o familiar envergonha-nos de nosso próprio interesse sobre ele, que expande o pequeno até parecer grande. “Se escrevesse uma fábula sobre peixinhos”, disse Goldsmith a seu respeito, “eles soariam como imensas baleias” [33]. Somos tão incapazes de distinguir os objetos mais familiares que ele descreve quanto seríamos de identificar um rosto conhecido encoberto por uma enorme máscara pintada. A estrutura de suas orações, que ele mesmo inventou e que depois foi amplamente imitada, é uma espécie de prosa rimada, na qual uma frase responde a outra na mesma medida e quantidade, como as sílabas ao final de cada verso; o fim de um período oscila com o mesmo movimento mecânico do pêndulo, o sentido está em equilíbrio com o som; cada oração, girando ao redor de seu centro de gravidade, está contida em si mesma como um dístico, e cada parágrafo forma uma estrofe. Dr. Johnson também foi um perfeito equilibrista em tópicos de moralidade. Nunca encoraja a esperança, antes a contrapõe ao medo; nunca deduz uma verdade, antes sugere alguma objeção em resposta a ela. Ele segura e larga, alternadamente, a chave da razão, com receio de se enredar num labirinto de erros sem fim; falta-lhe confiança em si mesmo e em seus companheiros. Não ousa confiar nas impressões imediatas das coisas, por medo de comprometer sua dignidade; tampouco as acompanha em suas consequências, por medo de comprometer seus preconceitos. Sua timidez é resultado não da ignorância, mas de uma apreensão mórbida. “Percorre o globo todo, e ainda está em casa.” [34] Não há em seus escritos um único avanço no modo de sentir ou de raciocinar. Fora dos ditames da autoridade e dos dogmas aceitos, tudo é cético, frouxo e desconexo: na imaginação ele parece reforçar o domínio do preconceito, enquanto enfraquece e dissipa o da razão; ao redor da rocha da fé e do poder, em cuja beira ele cochila de olhos vendados e inquieto, as ondas e os vagalhões da opinião incerta e perigosa rugem e se elevam sem parar. Seu Rasselas é a especulação moral mais melancólica e debilitada já escrita. Incerto das faculdades de sua mente, bem como de seu órgão da visão, Johnson confiava apenas nos seus sentimentos e nos seus medos. Cultivou uma crença em bruxas como salvaguarda às evidências da religião; abusou de Milton e prestigiou Lauder, a despeito de sua aversão por seus conterrâneos, apenas para assegurar a preservação da Igreja e do Estado. O que não é nem sentimento verdadeiro, nem lógica sã.

O registro mais triunfante dos talentos e do caráter de Johnson se encontra em Life of Samuel Johnson [Vida de Samuel Johnson], de Boswell. O homem era superior ao autor. Quando punha de lado sua pena, que considerava um estorvo, ele se tornava não apenas um homem erudito e reflexivo, mas afiado, espirituoso, bem-humorado, natural, honesto, cordial e determinado, “rei dos boas-praças, e cinta dos anciãos” [35]. Nesse “inventário de tudo o que disse” [36], escrito por Boswell, há tantas respostas mordazes, tantas observações profundas e tantos insultos afiados como jamais foram registrados sobre nenhum homem célebre. A vida e a encenação dramática de sua conversa contrastam com sua obra escrita. Seus poderes naturais e suas opiniões indisfarçadas afloravam nas relações de convívio. Em público, praticava com o florete na mão; no âmbito privado, sacava da bainha a espada da controvérsia, “temperada em água fria” [37]. A ansiedade o despertava de sua morosidade natural e da timidez adquirida; respondia a um golpe com outro; caso se tratasse de uma disputa de argumentos ou de ditos chistosos, nenhum de seus rivais era páreo para o combate. Burke parece ter sido a única pessoa que tinha alguma chance contra ele; o único pecado imperdoável da obra de Boswell foi o de ter omitido propositadamente os seus combates de força e de habilidade. Goldsmith se perguntava: “Ele serpenteia pelo assunto como uma cobra, tal como Burke?” [38]. E, quando prostrado pela doença, ele mesmo disse: “Se o camarada Burke estivesse aqui agora, ele teria me trucidado”. Deve-se observar que o estilo coloquial de Johnson era tão indelicado, direto e inequívoco quanto era complicado e tortuoso o estilo de seus escritos. Como quando Topham Beauclerk e Langton bateram à sua porta, as três da madrugada, e ele a abriu com o atiçador de brasa na mão, mas, vendo-os, exclamou: “Ora! São vocês, meus caros? Então vamos nos divertir um pouco!”; logo depois, censurou Langton, homem de letras, maricas, por deixá-los para ir ao encontro “de moças não ideais”. Que palavras para vir da boca de um grande moralista e lexicógrafo! Seus bons atos são tão numerosos quanto suas boas palavras. Seus hábitos domésticos, a ternura para com seus criados, a presteza em servir os amigos; a quantidade de chá forte que ingeria para refrear pensamentos melancólicos; os muitos trabalhos que relutantemente começava e irresolutamente abandonava; o reconhecimento honesto de seus erros e a indulgência para com as fraquezas dos outros; o recostar-se no banco da carruagem com Boswell, dizendo-lhe: “Agora, acho que sou um camarada bem-humorado”, embora ninguém o visse dessa forma e, no entanto, ele o foi; o rompimento da sociedade com Garrick e suas atrizes, e a razão de tê-lo feito; o jantar com Wilkes e a generosidade para com Goldsmith; o encontro em Mitre com jovens damas que o admiravam, para dar-lhes bons conselhos, situação que, se não fosse explicada, faria com que ele passasse por Falstaff; por fim, e o mais nobre de tudo, a desafortunada vítima da doença e intemperança que foi carregada por ele nas costas pela rua Fleet (gesto que realiza a parábola do bom Samaritano) – todas essas ações, e incontáveis outras, conquistam a estima do leitor, e devem ser lembradas para sua glória duradoura. Ele teve falhas, mas elas foram enterradas com ele. Tinha lá preconceitos e sentimentos intolerantes, mas sofria bastante ao confrontá-los às próprias resoluções. Pois se nenhum homem pode ser feliz no exercício livre de sua razão, nenhum sábio pode ser feliz sem isso. Seus preconceitos não eram oportunistas, impiedosos, hipócritas; mas tão profundos, arraigados, que só podiam ser arrancados com vida e esperança, achando ele, por hábito, que eram necessários à própria paz de espírito e também à paz da humanidade. Não o odeio, na verdade o amo por eles. Eles se interpunham entre ele e sua consciência; deixemo-los a cargo do mais elevado tribunal, “onde repousam, em esperança trêmula, o peito de seu pai e Deus” [39]. Em outras palavras, poucos homens mais sábios ou melhores vieram depois dele.

A manada de seus imitadores nos mostra, por seus efeitos desproporcionais, quem ele foi. Os Ensaístas de Periódico que sucederam o Rambler são, e merecem ser, pouco lidos nos tempos de hoje. The Adventurer [40], de Hawksworth, ao macaquear todas as falhas do estilo de Johnson, sem nada que as recompensasse, é no todo trivial e enfadonho. Suas frases são frequentemente desprovidas de qualquer significado; metade delas poderia ser completamente descartada. The World e The Connoisseur [41], que vieram depois, são um pouco melhores; neste último há uma ideia boa, a do homem relativamente saudável que mede o respeito a cada um pela posse dessa benção, fazendo reverência ao mendigo vigoroso, de braços robustos e tez rosada, enquanto vira as costas ao lorde valetudinário.

The Citizen of the World [42] de Goldsmith, como suas demais obras, traz a marca do espírito do autor. Não “se aventuraria em busca de fortuna e de honrarias se não fosse marcado pelo mérito” [43]. Foi um observador mais atencioso, mais original, natural e pitoresco do que Johnson. A obra foi escrita segundo o modelo das Cartas persas [44]; e consegue dar uma visão abstrata e de algum modo perplexa das coisas ao opor os preconceitos estrangeiros aos nossos, e, desse modo, despir os objetos de seus disfarces costumeiros. Se é possível chegar à verdade por essa colisão de absurdos contraditórios, não estou certo; mas confesso que esse procedimento é ambíguo e intricado demais para divertir um entendimento raso como o meu. Para uma leitura leve de verão, é como caminhar por um jardim coberto de armadilhas e arapucas. Ela dá ensejo a paradoxos, e há alguns bem ousados nos Ensaios, que submeteriam um autor com menos prestígio a uma espécie pouco agradável de censura literária [45]. Assim o filósofo chinês exclama inadvertidamente: “Os bonzos e sacerdotes de todas as religiões alimentam a superstição e a impostura; toda reforma começa com a laicidade” [46]. Goldsmith, contudo, foi firme na prática de seu credo e pôde disparar extravagâncias especulativas impunemente. Nesse aspecto, há uma diferença notável entre ele e Addison, pois, sempre que este atacava alguma autoridade, o fazia com o cuidado de se cercar do senso comum e de não correr o risco de dizer algo ofensivo aos sentimentos dos outros, ou algo que reforçasse suas próprias opiniões pessoais. Há outro inconveniente em assumir um caráter e uma tonalidade de sentimento exótico, que produz uma inconsistência entre o tempo hábil de um indivíduo para absorver conhecimento e tudo que o autor deve comunicar. Assim, não faz nem três dias que o chinês chegou à Inglaterra e já está familiarizado com o perfil dos três países que compõem o reino, e os descreve ao amigo em Cantão, por meio de trechos publicados em jornais de cada uma das metrópoles. A nacionalidade escocesa é assim ridicularizada: “Edimburgo. Temos convicção ao afirmar que Sanders MacGregor, há pouco condenado à forca por roubos de cavalos, não é um nativo da Escócia, mas de Carrickfergus” [47]. Ora, esta é mesmo muito boa, mas como nosso filósofo chinês poderia descobri-la por instinto? Beau Tibbs [48], personagem proeminente nessa pequena obra, é o melhor sketch cômico desde os tempos de Addison; incomparável em seu refinamento, vaidade e pobreza.

Por fim, gostaria apenas de mencionar os nomes de The Lounger e The Mirror, os quais foram comparados pelos admiradores do autor a Sterne, pelo sentimento, e a Addison, pelo humor [49]. Não vou entrar nessa questão aqui; mas conheço a história de La Roche e sei que ela não se compara a um centésimo da de Le Fevre [50]. Digo isso por preconceito em relação ao autor? De modo algum, pois li seus romances. Quanto a Man of the World [51], minhas opiniões a seu respeito não são tão favoráveis quanto as de outros; tampouco me demorarei aqui na beleza pitoresca e romântica de Julia de Roubigné [52], antiga obra favorita do autor de Rosamond Gray [53]; agora, quanto a Man of Feeling [54], falaria dessa obra com gratas recordações: jamais conseguiria me esquecer do sensível, irresoluto e interessante Harley e da figura solitária de miss Walton, que paira indistinta e etérea sobre o horizonte, devaneio da fantasia juvenil de seu amado – melhor, muito melhor, do que todas as realidades da vida!

 

 

NOTAS

[1] Francis Bacon, “Dedication to Buckingham”, Complete Essays. Todas as notas se referem à edição da Dover Publication, INC, Mineola, New York, p. 1. [N. do T.]

[2] Que entre na compilação do meu livro o que os homens fazem”, das Sátiras de Juvenal. Essas palavras serviram de lema para os primeiros 40 números de The Tatler. [N. do T.]

[3] William Shakespeare, Hamlet, ato III, cena 2, Teatro completo: tragédias. Trad. Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 574.

[4] Idem, Henrique V, ato I, cena 1. Trad. Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Lacerda, 2006, p. 22. [N. do T.]

[5] Idem, Bem está o que bem acaba, ato IV, cena 3, Teatro completo: comédias. Trad. Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 510. [N. do T.]

[6] “Melhor, mais fácil/ Que Crantor, ou Crisippo, ele me ensina/ O que é útil, nocivo, torpe, e honesto”. Horácio, Epístola II. Trad. António Luís de Seabra. [N. do T.]

[7] Laurence Sterne, A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy. Trad. José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. [N. do T.]

[8] Ibidem.

[9] Alexander Pope, Epistle to Cobham, ll. 146-7, The First Satire of the Second Book of Horace. [N. do T.] Não é fácil dizer o porquê de Pope ter dito a seguinte frase em referência a Montaigne: “Ou o mais sábio Charron”. [N. do A.]

[10] “Pereçam os que expressaram as nossas ideias antes de nós”. Dito atribuído ao gramático Élio Donato. Trad. Paulo Rónai, in Não perca o seu latim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. [N. do T.]

[11] Como exemplo de seu poder geral de raciocínio, cito o ensaio intitulado “De como o que beneficia um prejudica o outro”, no qual ele praticamente antecipa o célebre paradoxo de Mandeville sobre os vícios privados e os benefícios públicos. “Dêmande, de Atenas, condenou um homem de sua idade que comerciava com coisas necessárias aos enterros, acusando-o de tirar disso lucro excessivo, somente auferível da morte de muitas pessoas. Tal julgamento não me parece muito equitativo, pois não há benefício próprio que não resulte de algum prejuízo alheio e, de acordo com aquele ponto de vista, qualquer ganho fora condenável. O mercador só faz bons negócios porque a mocidade ama o prazer; o lavrador lucra quando o trigo é caro; o arquiteto, quando a casa cai em ruínas; os oficiais de justiça, com os processos e disputas dos homens; os próprios ministros da religião tiram honra e proveito de nossa morte e das fraquezas de que nos devemos redimir; nenhum médico, como diz o cômico grego [Filêmon] da Antiguidade, se alegra em ver seus próprios amigos com saúde; nem o soldado, seu país em paz com os povos vizinhos. Assim tudo. E o que é pior, quem se analisa a si mesmo verá no fundo do coração que a maioria de seus desejos só nascem e se alimentam em detrimento de outrem. Em se meditando a propósito, percebe-se que a natureza não foge, nisso, a seu princípio essencial, pois admitem os físicos que toda coisa nasce, se desenvolve e cresce em consequência da alteração e corrupção da outra: ‘Logo que uma coisa qualquer muda de maneira de ser, disso resulta imediatamente a morte do que era antes’”. In Michel de Montaigne, Ensaios, Livro I, XXI. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Globo, 1961, p. 180. [N. do A.]

[12] A tradução de Montaigne feita por Charles Cotton foi publicada em três volumes entre 1685 e 1686. Há, contudo, uma tradução inglesa anterior, de John Florio (1603).

[13] A tradução de Cotton foi dedicada a George Savile, marquês de Halifax (1633-1695), político e escritor, em cuja resposta à dedicatória disse sobre os Ensaios: “Nenhum outro livro do mundo me causa um prazer maior”.

[14] A edição das obras de Cowley, publicada em 1668, um ano após a morte do autor, inclui o livro Several Discourses by Way of Essays, in Verse and Prose, obra que faria a fama do autor. Miscellanea, de sir William Temple (1628-99), foi publicada nos anos de 1680, 1690 e 1701. Anthony Ashley Cooper, terceiro conde de Shaftesbury (1671-1713), publicou seu The Moralist em 1709 e Characteristics of Men, Manners, Opinions and Time em 1711.

[15] William Shakespeare, Macbeth, ato III, cena 1. Trad. Manuel Bandeira. São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 82. [N. do T.]

[16] Século 18. [N. do T.]

[17] The Tatler (“o mexeriqueiro” ou “o fofoqueiro”) é a matriz de todas as revistas de ensaios, inclusive desta, serrote. Criado por Richard Steele, o periódico semanal circulou por Londres de 12 de abril de 1709 a 2 de janeiro de 1711. Sob a persona literária de Isaac Bickerstaff, os ensaios foram escritos por Steele, Joseph Addison e, em menor número, Jonathan Swift. Em 1711, apareceu a primeira edição em livro do Tatler, e desde então a obra vem sendo reeditada. [N. do T.]

[18] Abreviação de Esquire, título de cortesia que se acrescenta a um nome quando precedido de mr., dr. etc. Outro sentido da palavra, raro hoje em dia, corresponde a um acompanhante de mulher. [N. do T.]

[19] William Shakespeare, Otelo, ato I, cena 3. Teatro completo: tragédias. Op. cit., p. 616.

[20] Richard Estcourt (1688-1712), ator e dramaturgo, e Thomas D’Urfey (c. 1653-1723), dramaturgo e compositor. Ver The Tatler, 20 (26 maio 1709) e 11 (5 maio 1709).

[21] The Spectator foi um periódico diário lançado por Richard Steele e Joseph Addison logo após o término do Tatler. De duração mais curta que este, Spectator circulou de 1 de março de 1711 a 6 de dezembro de 1712. Todavia, seu impacto foi ainda mais decisivo na cultura ocidental. Em 1712-15, os ensaios foram reunidos em livros e, em pouco tempo, traduzidos para outros idiomas ou imitados em vários países da Europa. [N. do T.]

[22] John Dryden, Aureng-zebe, ato IV, cena 1, ll. 41-42.

[23] The Spectator, 113, 10 de julho de 1711.

[24] Idem, 130, 30 de julho de 1711.

[25] Addison criou a Corte de Honra em The Tatler 250 (14 nov. 1710).

[26] Guy of Warwick é o herói inglês de uma narrativa romanesca que foi popular na Inglaterra e na França entre os séculos 13 e o 17. The Seven Champions of Christendom conta a história dos santos patronos da Inglaterra, Escócia, Irlanda, França, Espanha, Portugal e País de Gales. [N. do T.]

[27] Bernard Mandeville (1670-1733), autor da Fábula das Abelhas. O sarcasmo em questão aparece em Life of Addison [A Vida de Addison] de Samuel Johnson. (Hill, vol. II, p. 123).

[28] Creio que o estilo antitético e os paradoxos verbais de que Burke tanto gostava, nos quais o epíteto está em aparente contradição com o substantivo, como em: “A submissão orgulhosa e a obediência digna” [Burke, Reflections on the French Revolution], apareceram primeiro no Tatler. [N. do A.]

[29] The Rambler foi um periódico escrito quase inteiramente por Johnson e publicado em Londres todas as terças-feiras e sábados entre 20 de março de 1749 e 14 de março de 1752. Ao lado de The Idler, o periódico foi a principal contribuição do autor na escrita de ensaios, os quais tratam de temas diversos, como filosofia moral, política, religião, literatura e sociedade. [N. do T.]

[30] William Shakespeare, Hamlet, III, ato I, cena 67. Teatro completo: tragédias. Op. cit., p. 572.

[31] Expressão latina que se traduz por “fogo-fátuo”. [N. do T.]

[32] John Milton, Paraíso perdido, IV. Trad. Daniel Jonas. São Paulo: Editora 34, 2015, p. 281.

[33] The Life of Samuel Johnson, v. II, p. 231.

[34] William Cowper, The Task, IV, 119.

[35] Robert Burns, Auld Rob Morris, 2.

[36] Ben Jonson, The Alchemist, ato III, cena 2, p. 121.

[37] William Shakespeare, Otelo, ato V, cena 2. Teatro completo: tragédias. Op. cit., p. 658.

[38] The Life of Samuel Johnson, v. II.

[39] Thomas Gray, Elegy, ll, 127-8.

[40] The Adventurer circulou por Londres entre 7 de novembro de 1752 e 9 de março de 1754. John Hawkesworth (1715-73) foi o editor e principal contribuinte, mas não o único. Alguns ensaios foram escritos por Johnson. O periódico alcançou grande sucesso de público, e seu formato em livro foi inúmeras vezes reeditado. [N. do T.]

[41] The World e The Connoisseur circularam por Londres, respectivamente, entre 4 de janeiro de 1753 e 30 de dezembro de 1756, e de 31 de janeiro de 1754 a 30 de setembro de 1756.

[42] The Citizen of the World foi uma coletânea de cartas escritas por Oliver Goldsmith (1728-1774) na qual o autor se passa por um viajante chinês na Inglaterra, Lien Chi, e correspondente de um filósofo e cavalheiro chinês. A obra foi escrita para o The Public Ledger, 1760-1, e publicada em dois volumes em 1762. [n. do. t.]

[43] William Shakespeare, O mercador de Veneza, ato II, cena 9. Teatro completo: tragédias. Op. cit., p. 229.

[44] Hazlitt se refere a Letters from a Persian England to friend at Ispahan (1735), de George, primeiro barão de Lyttelton (1709-73).

[45] Em latim no original. [N. do T.]

[46] The Citizen of the World, carta X.

[47] Idem, carta v.

[48] Idem, cartas XXIX, LIV, LV, e LXXI.

[49] The Mirror circulou por Edimburgo entre 23 de janeiro de 1779 e 27 de maio de 1780. De seus 110 artigos, 42 foram escritos por Henry Mackenzie (1745-1831). The Lounger foi publicado de 6 de fevereiro de 1785 a 6 de janeiro de 1786. De seus 101 artigos, 57 foram escritos por Mackenzie. [N. do T.]

[50] Sobre a história de La Roche, ver The Mirror, n. 42, 43 e 44. Le Fevre aparece em Laurence Sterne, op. cit.

[51] Romance de Henry Mackenzie publicado em 1773.

[52] Outro romance de Mackenzie, publicado em 1777.

[53] Romance de Charles Lamb, 1798.

[54] Primeiro romance de Mackenzie, publicado anonimamente em 1771.

 

 

William Hazlitt (1778-1830) é tido como o grande mestre do ensaísmo inglês. Homem de imprensa, teve boa parte de sua obra dispersa em publicações as mais diversas. As coletâneas The Round Table (1817), escrita em parceria com o amigo e ensaísta Leigh Hunt, Table-Talk (1821) e The Plain-Speaker (1826) reúnem o fundamental de seus escritos – desta última, a serrote publicou, no número 9, o clássico “Sobre o prazer de odiar”. Hazlitt também ministrou três cursos de literatura inglesa que apareceram na sequência em livro. Entre eles, Lectures on the English Comic Writers (1818), em que este ensaio, inédito em português, foi originalmente publicado.

Tradução de Daniel Lago Monteiro

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