Links da quarentena: um brinde a Sondheim e o futuro da arte confinada

Links da quarentena: um brinde a Sondheim e o futuro da arte confinada

Toda sexta-feira, a serrote indica reflexões sobre a pandemia publicadas ao longo da semana no Brasil e no mundo. Nesta edição, o musical virtual em homenagem aos 90 anos do compositor Stephen Sondheim, o retrato de 24 horas na vida dos nova-iorquinos durante a crise, uma entrevista com o filósofo Paulo Arantes, uma provocação sobre o futuro da arte e um podcast sobre uma epidemia passada que diz muito sobre a atual.

Esta seção é parte da série #IMSquarentena, com ensaios do acervo, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia. 

Os aniversários de Stephen Sondheim, pelo menos os de data redonda, são sinônimos de grandes concertos em que elencos multiestelares reafirmam o óbvio: o homem que revolucionou o teatro musical americano é um dos maiores gênios da música do século 20. Se as festas de 70 e 80 anos deram em discos admiráveis, a comemoração de 2020 entra para a história pelas circunstâncias em que foi realizada: as mais de duas horas de “Take me to the world” aconteceram no Youtube na noite de domingo, quatro dias depois do 90o aniversário do autor de canções como “Send in the clowns” e “Sooner or later”. Parece que, ao vivo, a transmissão foi uma trapalhada. Na versão gravada, é uma delícia. Mas se quiser ir direto ao assunto principal, pare em 1h 58’35’’: é ali que Christine Baranski, Audra McDonald e uma espetacular Merryl Streep fazem a festa. “The Ladies Who Lunch” é um dos clássicos de Sondheim, criado por Elaine Stricht para o musical Company e sem intérprete melhor até sua morte. Patti Lupone, atual “titular” da canção, cedeu-a às três, que transformaram numa conversa etílica via Zoom o porre em que dondocas brindam à sua própria futilidade. Devidamente trajadas em roupões, largadas num canto qualquer de suas casas, Baranski empunha um vinho, McDonald um Bourbon e Streep uísque e dry martini numa performance antológica – que talvez não tivesse a mesma graça num palco.

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Antes da Broadway confinada, a Rádio Batuta comemorou com a mesma pompa e circunstância o aniversário do gênio. O jornalista e crítico João Máximo, que sabe tudo e mais alguma coisa de teatro musical e, especialmente, do autor de Follies, mostra em cinco capítulos porque Sondheim é Sondheim.

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Em 15 de abril, Nova York registrou 723 mortos por covid-19. Naquela quarta-feira, que marcou, nas palavras do governador Andrew Cuomo, “o topo do platô” da crise provocada pelo coronavírus, a revista New Yorker despachou 25 repórteres para documentar um dia na vida da cidade que se tornou o epicentro global da pandemia. O resultado é uma reportagem que já nasce clássica, narrando 24 horas do ponto de vista de trabalhadores essenciais – entregadores, faxineiros, enfermeiros, médicos, jornalistas, agentes funerários – mas também moradores à espera do auxílio financeiro do governo, um rapper que improvisa um clipe caseiro para lançar seu novo single, uma stripper que se apresenta on-line para os clientes, um bebê recém-nascido. Intitulado apenas “15 de abril de 2020”, o texto é uma homenagem ao sofrimento, à resistência e à altivez irônica dos nova-iorquinos diante da mais grave emergência de saúde pública de sua história.

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A arte contemporânea ganha novas possibilidades em tempos de confinamento. Pelo menos é essa a hipótese, tão otimista quanto controversa, que a crítica Bea Espejo defende no El País. O Zoom se mostrou, segundo ela, um canal perfeito para que o artista argentino David Lamelas recriasse uma performance dos anos 1970, e o Instagram já abriga o exótico Covid Art Museum. “A era pós-mídia que se anunciava há alguns anos na arte na verdade era isso. Nem pós-internet, nem pós-verdade, nem pós-futuro”, escreve ela.

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Em seu livro mais recente, O novo tempo do mundo (Boitempo), o filósofo Paulo Arantes analisa o que chama de “era da emergência”, nossa época marcada por catástrofe climática, colapso urbano, capitalismo predatório e derrocada das utopias. Temas que se tornam mais urgentes diante da pandemia, como o professor da USP mostra nesta entrevista em que discute a radicalização do governo Bolsonaro, a forma como o mercado se apropria do medo e o imperativo político de abandonar a “paciência histórica” e reagir ao fascismo.

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O tema da nova temporada do podcast de ciência 37 graus deveria ter sido a epidemia de zika que assolou o Brasil, sobretudo o Nordeste, entre 2015 e 2016. Mas, quando o primeiro episódio foi ao ar, em 17 de março, já estava claro que o assunto dominante em nossas vidas por muito tempo seria o coronavírus. Diante disso, as produtoras e apresentadoras Bia Guimarães e Sarah Azoubel transformaram a série numa ponte entre a epidemia passada (ou não tão passada assim, como elas deixam claro) e a pandemia atual. Em sete episódios, o podcast reconstitui com rigor e sensibilidade a trajetória de pessoas afetadas pela zika, de cientistas espantados com um vírus jamais visto no Brasil até famílias de bebês nascidos com microcefalia. A série terminou nesta semana, deixando reflexões importantes sobre o que pode acontecer quando um vírus desconhecido e devastador atinge as populações mais vulneráveis num país profundamente desigual.

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