serrote 40

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A nova edição da revista de ensaios do IMS reúne convidados do Festival Serrote 2022: Saidiya Hartman, Fabiana Moraes, Marcos Queiroz e Igor R. Reyner. Traz também um ensaio visual de Cildo Meireles, uma seção especial sobre os 200 anos da independência e muito mais

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CARTA DO EDITOR

O ensaio pessoal resolve na prática dilemas nas relações entre o mundo e o indivíduo. Desmente, por exemplo, que, em tempos turbulentos, questões públicas eclipsam aflições íntimas. Nessa vertente do ensaísmo, que tem em Virginia Woolf sua melhor expressão, umbigo não é finalidade, mas o ponto em que a experiência singular e intransferível se espraia pelo coletivo e por ele é contaminada.

Um episódio de humilhação na infância lança uma luz surpreendente sobre o terrorismo quando escrutinado por Vivian Gornick, referência para o ensaísmo pessoal, e para Gabriela Wiener, que, nos percalços da vida de seu tataravô, de quem herdou o sobrenome europeu, revê as pilhagens arqueológicas do país em que nasceu, o Peru.

Em “O mal que tenho”, Igor R. Reyner recorre a Proust como antídoto para a autopiedade numa densa reflexão sobre dois enfrentamentos com o câncer.

Também no registro biográfico, Yasmin Santos traça, em “Ladainha da sobrevivência”, o percurso
acidentado para a afirmação das intelectuais negras.

É ainda na perspectiva pessoal, desta vez recriada por recurso literário, que Saidiya Hartman conta, em “A trama para acabar com ela”, a vida de uma mulher sem nome e sem história que é todas as mulheres negras em toda a história. Nada que Gertrude Stein não tenha sugerido quando pensou numa “autobiografia de todo mundo”. (PAULO ROBERTO PIRES)

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SUMÁRIO

INDEPENDÊNCIA: 1822-2022
Entre o grito de d. Pedro e a gritaria das redes sociais, das margens do Ipiranga à avenida Paulista, o Brasil pouco fez para honrar a ideia de Independência. Na certeza de que há quase nada a celebrar e muito a discutir nesses 200 anos, convidamos quatro intelectuais a refletir sobre brados pouco retumbantes

Heloisa Murgel Starling / Bruno Moreschi
Ideal degradado

Marcos Queiroz
Delírio de liberdade

Fabiana Moraes
Dependência completa

Bernardo Carvalho
Motociata ou morte

POLÍTICA
Fábio Zuker / Janaina Tschäpe
Tirano à procura de um autor
Obsessão pela morte e cultivo da violência fazem de Jair Bolsonaro candidato a um “romance de ditador” latino-americano

ENSAIO
Saidiya Hartman / Sungi Mlengeya
A trama para acabar com ela
A trama para acabar com ela começa com o domínio dele

CONCURSO SERROTE
Yasmin Santos / Dalton Paula
Ladainha da sobrevivência
Escrevo para honrar a luta de meus ancestrais, para de certa forma vingá-los, numa cultura em que a vida intelectual é interditada às mulheres negras pelo racismo e pelo patriarcado

Pedro Sprejer / Peter Solmssen
O agente esteta
Em relatórios confidenciais, fotografias e um romance, diplomata americano que viveu no Brasil na década de 1960 produziu uma peculiar interpretação do país sob o golpe militar

ENSAIO VISUAL
Cildo Meireles
Desenhos africanos

ENSAIO PESSOAL
Igor R. Reyner / George Condo
O mal que tenho
Sobre Proust, câncer e morte

Vivian Gornick / Jade Marra
Os sentidos da humilhação
De George Eliot a Erich Fromm, de Auschwitz ao 11 de setembro, os ataques ao amor-próprio podem produzir uma onda avassaladora de destruição

Gabriela Wiener / Nicole Franchy
À sombra do huaquero
Um tataravô até pode passar despercebido, a menos que tenha levado para a Europa quatro mil peças pré-colombianas num tempo em que bastava remexer terra para ser considerado arqueólogo

FILOSOFIA
Márcio Suzuki / Waltercio Caldas
O semelhante não é o que parece
Leibniz e Jorge Luis Borges encontram-se num mundo em que as grandezas são relativas, e o tempo, circular

LITERATURA
Walter Siti / Vaka Valo
O realismo é o impossível
O gênero a que se atribui a representação fiel do real é menos um espelhamento plano e subalterno do que um desafio à natureza e à história

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