O mal-estar na canção – Romulo Fróes e Walter Garcia

O mal-estar na canção – Romulo Fróes e Walter Garcia

O quinto encontro da seção “Desentendimento” reúne o cantor e compositor Romulo Fróes e o professor de música da USP Walter Garcia para discutir o estado atual da música brasileira e uma suposta crise da canção. Paulo da Costa e Silva, coordenador da Rádio Batuta, a webradio do IMS, foi responsável pela mediação do bate-papo em vídeo.

 

Bloco 1 – “Sobrevivendo ao inferno [dos Racionais MC’s] tem um patamar artístico mais elevado que Cambaio, de Chico Buarque”.

Em entrevista, Chico Buarque foi o primeiro grande nome da MPB a mencionar um possível “fim da canção”. Está a canção em crise? E por quê? Rômulo Fróes argumenta que a ideia de um público, como existia nos anos 50, não existe mais. O compositor acredita que a canção não tem mais um papel protagonista, e que vive uma crise no sentido de que a crítica espera um novo Chico ou Caetano desta geração.

Walter Garcia retoma o contexto no qual Chico fez a afirmação sobre o fim da canção: a relação da canção tradicional com a MPB e com o rap. Para Walter, o disco Sobrevivendo ao inferno, dos Racionais Mc’s, tem muito mais força que Cambaio, de Chico Buarque. O rap tem a capacidade de dialogar com a experiência contemporânea de viver nas grandes cidades brasileiras.

http://vimeo.com/45856847

Bloco 2 – “O Criolo acha que pode mexer com Chico Buarque na maior. Uma petulância do bem.”

Walter Garcia e Romulo Fróes discutem os meios de produção atuais da música – o acesso ao computador como necessário para criar música nos dias de hoje. Paulo questiona se o rap pode ser visto como uma continuidade ou uma negação da música que vinha sendo produzida no país. Walter traça uma linha da música negra em São Paulo, que passa ao largo da história oficial da MPB. Romulo Fróes, discutindo os sucessores de Racionais, afirma que Emicida e Criolo, artistas que vieram depois, não apresentam mais a violência do Mano Brown. O compositor afirma que esses novos músicos conseguem repensar o cânone (Chico, Caetano) de maneira irônica, sampleando e parodiando.

http://vimeo.com/45856850

Bloco 3 – “A crise do Chico está na canção dele”

Walter toma o último disco de Chico Buarque e propõe mais uma comparação com Racionais. Fróes questiona a eficácia dos arranjos nos últimos discos de Chico, exemplificando sua crítica com a canção Tipo um Baião  – e Walter discorda, defendendo o trabalho de Luiz Cláudio Ramos. Garcia afirma que Ramos é avançadíssimo no jogo entre a harmonia e a melodia.

http://vimeo.com/45856848

Bloco 4 – “A canção da MPB expressava uma ideia de conciliação de classes desde os anos 40. A partir de 1980, essa ideia começou a ruir.”

Romulo Fróes retoma o trabalho de Caetano Veloso em seus últimos discos – e o contato do compositor com novos artistas, que transformou a música dele. Walter afirma que, desde O estrangeiro, Caetano tenta dar conta de uma nova fase da vida brasileira, na qual a violência aparece e a conciliação de classes não é mais possível. 

http://vimeo.com/45856849

10 respostas para O mal-estar na canção – Romulo Fróes e Walter Garcia

  1. Rômulo continua a mais completa tradução do verso”Narciso acha feio o que não é espelho”.

  2. Alice Coutinho disse:

    “a canção é velha como a humanidade: cantos japoneses, poemas provençais, Lieder alemães do século 19 – tudo isso veio antes da canção do século 20 – e muito mais virá depois…”
    Caetano Veloso – em entrevista a Francisco Bosco na revista Cult.

  3. Mauro Aguiar disse:

    Deixo aqui a minha contribuição à matéria, numa reposta ao post de Sérgio Santos no facebook.

    Caro Confrade Sérgio

    Aqui estou eu atravessando a madrugada, pensamentando o fim da canção, tanto no sentido utilitário da palavra fim, como no seu sentido terminal. Fui atrás, como bom rato de internet, do link que meu nobre parceiro Rodrigo Lessa sugeriu, e lá no IMS me deparei com a revista “Serrote” e uma seção de vídeos nomeada “Desentendimentos”. Nesse número (o indefectível) Rômulo Fróes debate o “Mal Estar na Canção”com Walter Garcia, mediados por Paulo da Costa e Silva.
    Quando indagado sobre as causas da crise na canção, nosso caro colega (o indefectível) respondeu com uma frase lapidar, que a meu ver traduz perfeitamente o pensamento dominante de muitos novíssimos e novos compositores e suas escolhas estéticas. Veja bem, a canção está em crise porque:

    “ a canção não tem mais o papel principal dentro de um trabalho. Existem coisas que vão muito além da criação melódica ou harmônica”

    Ou seja a canção está em crise porque ela não é mais o foco da canção. Como? O foco é o “Trabalho”. E o que seria o “Trabalho”?
    Fica difícil realmente entender, mas eu peço emprestado um conceito do meu outro parceiro Wisnik, o de “canção expandida”, expressão com a qual ele define o que se anda fazendo “modernamente” com a canção e as experimentações sonoras que acompanham essa dita expansão.
    Talvez aqui nesse ponto fosse melhor lançar mão de um gráfico para tentar situar o que a “Canção Expandida” implica, mas como estamos numa discussão de post, vou tentar descrever o que a meu ver significa essa expansão.
    Imaginemos no centro de um diedro, uma esfera, e dentro dessa esfera, outras quatro esferas em interseção. As quatro esferas são coloridas, cada uma com uma cor e representam melodia, ritmo, harmonia, e letra. Elas são o núcleo da canção. Agora imaginemos outros círculos menores, circulando em torno deste, como eletróns, ou outras partículas subatômicas. Sim, essas partículas que estão em torno da canção são a tecnologia( softwares de manipulação de som), o marketing, as artes plásticas, a moda, a própria realidade(!), a mídia, o comportamento ( atitude), as tribos, etc. etc.
    O que acontece então quando é feita uma expansão do núcleo da canção na direção de algum, ou mesmo na direção de vários desses elementos periféricos? Uma desagregação. Porque a “canção expandida” não trabalha no sentido do núcleo, atrair essas esferas e se fortalecer como núcleo. Ela trabalha no sentido de esgarçar, fissurar e desagregar o núcleo para super-dimencionar as esferas periféricas. Evidentemente toda essa teorização só poderá ser levada em conta considerando-se a premissa da canção como uma arte híbrida. Bem, o movimento de duas esferas, ritmo e letra, por exemplo, se desagregando do núcleo e caminhando em direção à esfera do comportamental, explica o surgimento do rap. Mas a crise em si, é maior quando todas as esferas do núcleo da canção, são esticadas em todos os sentidos e começam a virar balões transparentes, frágeis e sem conteúdo. Daí, vemos o nascimento dessa canção cartilaginosa que possui vários aspectos mensuráveis e nomeáveis.

    Um deles a alta densidade de clichês melódicos e idiomáticos utilizado pelos novos criadores, mesmo naqueles que pensam estar recortando a realidade num instantâneo despretensioso. A utilização do clichê é filha direta do ”faça você mesmo”, da criação caseira, que dispensa o trabalho consciente e inconsciente com o instrumento, o labor e a maturação, o tempo de contemplação, o afastamento da obra. Todo instrumento criado pelo ser humano, seja um garfo ou uma bomba-atômica traz nele embutido o cerne de uma cultura e gera outras culturas a partir do seu manuseio. Como nos afastar se estamos inseridos no instrumento-estúdio? Se nossa consciência foi capturada pelo software? Esse não afastamento e volta à obra no momento mesmo da criação, acaba gerando discursos vazios para audições vazias. Esse embaralhar de clichês é justificado pelos seguintes argumentos.

    1-a
    Tudo já foi criado, não existe mais criação possível, nossa geração agora dispõe dessa imensa biblioteca disponível de clichês para trabalhar.
    Seria mais ou menos como se eu me recusasse a usar as palavras do dicionário, ou expressões idiomáticas para escrever um livro ou mesmo uma letra de música me servindo de frases pinçadas dos livros de Kafka, Drummond, ou Patativa do Assaré. A collage como regra, como dogma e não como recurso, citação, reforço ou paralelo.

    2-b
    A canção tem que ser palatável, reconhecível, tem que percorrer o mesmo caminho mental de outras canções anteriores.
    A consequência desse pensamento é o emparelhamento da “canção expandida” com as mesmas canções publicitárias, macias e passageiras. Um desavisado poderia pensar estar ouvindo jingles de automóveis ou margarinas. E estamos! A frase musical que mobiliza determinada classe social para a compra de um produto, na maioria dos casos prefere os caminhos em que os neurônios ficam mais descansados e felizes. Não há desestruturação. E daí temos o terceiro elemento.

    3-b
    A canção tem de ser de auto-ajuda. Assim como nas livrarias proliferam os títulos de auto-ajuda, também nas rádios e afins, pululam as canções de incentivo, verdadeiros manuais de comportamento ( vou pra onde tenha sol, é preciso saber viver, procuro um amor que seja assim, assado, você deve fazer isso, etc). Essa canção de auto-ajuda é a música anestésica aos males das grandes metrópoles, ela alivia o stress do rush, ela funciona como um Lexapro, um Rivotril sonoro, evitando o conflito e a incerteza.
    Versos como:

    Olho no olho
    E flor no jardim
    Flor, amor
    Vento devagar
    Vem, vai, vem mais!

    São alívios diante de uma realidade crua, de uma competição desenfreada, diante de revoluções diárias do nosso capitalimo ultra-dinâmico que elevou a incerteza a níveis macro-cósmicos e micro-cósmicos.
    Em outro lugar, mas não sem a mesma incapacidade de dialogar com o núcleo da canção, encontra-se a crua palavra dos Racionais ( Citados no debate acima referido como “artisticamente” mais relevantes que Chico Buarque, em determinado período). Trabalhando a fala ritmada e os samplers, eles se voltam contra essa sociedade que os marginaliza e oprime, sociedade que produz e consome essa música de margarina citada acima e os softwares e hardwares que eles utilizam para fazer o seu rap. Usam o ferramental à sua disposição e se irmanam com as periferias de todas as metrópoles em sua ira contra o sistema. Mas são absorvidos pelo mesmo na figura de um Criolo, de um Marcelo DJ, pelo simples fato de que a cultura de gueto que gerou essa forma de expressão foi comercializada e enquadrada há décadas pela indústria do entretenimento. Temos aí duas vertentes inconciliáveis, um problema de fissura na própria sociedade, o que inviabiliza a canção como ela nos foi proposta pelos predecessores. A canção urbana que nasceu radiofônica, se desenvolveu comercialmente como entretenimento, migrou para a TV na década de 60, época em que a TV ainda aproveitava as formas do rádio ( novelas, programas de auditório, etc), essa canção foi totalmente re-trabalhada a partir da bossa-nova por uma geração que quis se servir dela para projetos estéticos e comportamentais mais ambiciosos. A grande diferença dessa geração, para a atual é que a expressão “se servir dela” não significou para eles abandonar o modo criador ( aquele núcleo híbrido), mas também aprofundá-lo, destrinchando e emancipando a melodia, a harmonia, a letra, libertando-as dos clichês e fazendo com que o núcleo de avolumasse e pudesse ocupar os outros espaços periféricos como o comportamental, a mídia, a tecnologia, etc etc. O desenho proposto por esses mestres que estão aí até hoje, com uma vitalidade desafiadora ( a introdução do poético no coloquial sem a desestruturação do coloquial, paradoxo bem-vindo e sutilmente elaborado sem arestas, os comentários jobiniamos, preservando o aspecto melódico se valendo do improviso do jazz. Tantas e muitas conquistas! ), é o desenho da expansão do núcleo e o abarcamento pelo núcleo dos sentidos periféricos.

    Mas o que vemos atualmente é o desafio do intraduzível, uma sociedade complexa que lida com a censura velada dos meios de comunicação, a explosão de redes sociais, a falência de um modelo alternativo , o homem caminhando para o pós-humano, a melancolia e a tristeza sendo tratadas como doenças, etc, etc. Como dar conta disso?

    Pelo que podemos perceber nessa nova canção, o recurso é adesão ao se valendo de discurso que ultrapassa o icônico e caminha na direção da insignificância (não no sentido pejorativo, veja bem!)
    É a chamada Marcelocamelização da sintaxe. Que tem suas raízes da Arnaldantunização da letra de música. Só posso esclarecer melhor o meu ponto de vista me servindo de algum enxerto, portanto perdoa-me colega a citação:

    todos os encontros, todos os poemas
    manda me avisar, manda me avisar

    Toda beira é final de dois

    Mais um pouco e vai dar sinal
    Brinco de esconder
    Caminho de fé não vou mais

    Vida que é doce levar avisa de lá que eu já sei

    Essa falta de conexão entre os elementos, a justaposição gratuita é levada ao extremo por outros autores dessa geração, afinal de contas o assunto recorrente é o nada. Há pouco tempo, fiz uma experiência. Escutei por um dia inteiro uma determinada rádio carioca, que diz MPB ser tudo, e pude verificar que o tema de 80% das canções eram o Nada, a Negação, a Evasão, e outras formas de Vazio. O projeto Caetânico, de transposição da poesia concreta e da música concretista para a canção, encontrou seguidores e adeptos em várias frentes e veio desaguar nessa geração que trabalha os tijolos sobrepostos usando imagens destituídas de qualquer sentido inerente. Como Ítalo Calvino afirma em suas “Seis Propostas Para o Próximo Milênio”, comentando a fraqueza dos significados das imagens em vídeo-clips e a sua proliferação indiscriminada.

    Outro aspecto que decorre destes todos antes comentados é avalorização das sonoridades em detrimento da harmonia.
    Vivemos a época dos engenheiros de som e dos produtores pagos a peso de ouro.
    Hoje em dia um trabalho vale mais pelos produtores que a ele estão associados do que pelo conteúdo artístico do mesmo. Houve a época dos arranjadores, dos arregimentadores, Francis, Radamés, Duprat. Hoje falamos em Kassim, Alê, Tom Capone, Campelo, etc etc. Não estou aqui defenestrando o trabalho dessas pessoas, olha lá! O que eu quero frisar é a mudança de foco do que seria essencial para se produzir, criar música.
    Esse é mais um movimento do nícleo da esfera no sentido da tecnologia, esgançando a sub-esfera da harmonia. Porque não aproximar a tecnologia do núcleo da canção e amplificar esse núcleo com a percepção expandida dessas novas ferramentas. Um amigo meu disse muito apropriadamente que o que os mais desconfiados chamam “barulinhos” ele chama de ampliação das capacidades perceptivas. O problema é que a tecnologia é um fetiche, ela cria seguidores. Tratam Jobs como um Novo Cristo de Silício. É fascinação por fios, pedais, telas de lítio. O homem tentando o salto de uma criação pós-humana acaba criando uma música pós-humana, com em Recanto da Gal-caetano. Música que deverá ser fluída melhor pelas futuras consciências artificiais. Enquanto isso os pássaros ainda voam de árvore em árvore.
    Tenho muitos parceiros que são considerados apenas instrumentistas. Eles tocam para viver, como fazia também Tom Jobim. Tem que abandonar a canção, pois a canção hoje em dia é praticamente proibida aos instrumentistas. Os modernos criadores de canções acham que o manejo de um instrumento e o estudo harmônico são dispensáveis, e até mesmo prejudiciais a uma criação mais leve e espontânea.
    Eu sou da opinião que deveríamos fazer o movimento contrário. É preciso que não tenhamos medo da influência, não nesse sentido de abandono ou enfrentamento vazio dos mestres, mas na dissecação dos seus cadáveres insepultos. Eles estão aí. Onde as escolas Dori Caymmi? Onde os Guingas multiplicados e transformados? Onde os Joãos Boscos percorrendo vielas de todo o país? Porque o governo brasileiro trata o cinema com tantas benesses e a música, nosso maior patrimônio fica sujeita ao mercado e aos professores não-músicos em pontos de cultura e escolas municipais?

    Questões. Alonguei muuuuuuito a conversa! Falei demais em todos os sentidos.
    Mas a conversa é longa, não pararia aqui.
    Perdão, Sérgio.
    Espero que você tenha lido em fases espaçadas para não cansar a retina e a paciência.
    Abraço.
    A letra está vindo!

    Deixo minha canção manifesto-mínimo que praticamente pede um adiamento do fim da canção, letra musicada por Wisnik.

    Nossa Canção
    José Miguel Wisnik / Mauro Aguiar

    Nossa canção guarda canções diversas.
    Minha ilusão, tua emoção
    Mil dimensões imersas.
    Outras virão buscando a luz,
    De cais em cais,
    Naus sobre naus: espessas.
    Pois as canções só são canções
    Quando não são promessas.

    Nessa canção cabem canções dispersas.
    Minha razão, teu coração,
    Mil sensações avessas.
    Outras virão de encontro a nós,
    De voz em voz,
    De par em par: esparsas.
    Pois as canções só são canções
    Quando não são mais nossas.

    • Rachel Rezende disse:

      Bom te ler Mauro Aguiar. Que refresco em meio a esta já longa discussão sobre o fim da canção. Concordando-se ou não com teus argumentos. O exercício do desprendimento é sempre uma alegria para quem lê.

  4. “A canção vem de situações muito primárias. A mãe embalando o filho, a cozinheira mexendo sua panela no fogão, o lavrador e sua foice pra lá e pra cá, o cara em cima do trator, a colhedeira colhendo trigo, o cara na linha de montagem, você no chuveiro. O homem canta. Sempre haverá canções. Em Marte, no futuro, eu já não estarei vivo, mas imagino um astronauta fazendo um dueto com um robô” (Gilberto Gil, Revista Gol, jun/2012).

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  6. Rodrigo Algum disse:

    sim, a canção morreu — basta ouvir as músicas de romulo fróes. mas méritos ao rapaz, ele é um trabalhador, faz tanto barulho com alguns dos piores discos que já ouvi.

  7. A música feita no séc dezenove tinha o formato tal qual conhecemos?me parece que tava mais pra opereta,não?Talvez o futuro seja o rap mesmo,eu ainda prefiro Edú e Chico.

  8. Pois é… O Sr Romulo e o Sr Walter fazem parte do grupo de profissionais – que está ganhando cada vez mais adeptos – onde o discurso vêm antes do trabalho pois o trabalho por si só não se sustenta. Fraquinho, fraquinho…

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