Os Aforismos reunidos de Franz Kafka

serrote #1, março 2009

Os Aforismos reunidos de Franz Kafka

Introdução e tradução de MODESTO CARONE

 

À memória de Marilene Carone, psicanalista e intelectual, tradutora de Freud.

 

O Dicionário etimológico de José Pedro Machado1 informa que a palavra aforismo deriva do grego e chegou à língua portuguesa através do latim tardio aphorismu-, com o sig­nificado de “limitação, breve definição, sentença”. Acres­centa que, com o tempo (já está documentado no século 16), o termo passou a designar “uma sentença breve e indiscutível, que resume uma doutrina”.

Kafka recorreu ao aforismo em suas conversas (por exemplo, com o poeta Gustav Janouch, autor do livro Con­versas com Kafka, de 1953) e no decorrer de sua carreira como escritor. Uma das principais coleções dessas “sen­tenças breves e indiscutíveis” foi publicada no pequeno livro póstumo Er [Ele], a partir das anotações dos diários que o escritor manteve de 1909 a 1923-24.

Do outono de 1917 até a primavera de 1918, o pensador de Praga, já muito doente, recebeu uma licença de saúde do trabalho de jurista e foi morar na propriedade de Zürau, dirigida por sua irmã predileta, Ottla. Foi no campo, com a “respiração diferente” e atento à gravidade da tuberculose pulmonar que deveria matá-lo (sua primeira hemoptise ocorreu em 1917), que ele se dedicou com afinco a esse tipo de escrita, que testemunha sua preocupação com a vida e a morte, lembrando pelo laconismo, ou então pela frase circunstanciada, o “protocolo kafkiano”, que coincide, em longa medida, com seu gosto pela narrativa breve (contos, novelas, parábolas), que vinca sua obra e, até certo ponto, supera, pela composição enxuta e muitas vezes rasante, os grandes romances do espólio.

Nesse período, Kafka absteve-se de escrever ficção, só voltando a ela bem mais tarde –— o torso colossal de O castelo, por exemplo, foi redigido em seis meses em 1922, dois anos antes de sua morte.

O aspecto factual mais relevante dos 109 Aforismos reunidos, aqui publicados, é que eles resultaram de uma seleção feita pelo autor, depois de -los passado a limpo à mão, com a evidente intenção de dá-los a público. Tudo indica que não houve tempo hábil para tomar essa deci­são. A discrição de Kafka chegava a esse ponto e de certo modo explica sua tentativa (felizmente fracassada) de mandar o amigo Max Brod destruir os escritos não publi­cados em vida.

A base para este trabalho foi o volume Beim Bau der Chinesischen Mauer und andere Schriften aus dem Nachlass [Durante a construção da Muralha da China e outros escritos do espólio], incluído entre os 12 tomos da edição de bolso elaborada segundo os manuscritos originais da edição crítica das obras de Franz Kafka (organização de Hans-Gerd Koch, Frankfurt a. M.: Fischer Taschenbuch Verlag, 1994).

 

1 O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada no alto, mas logo acima do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser percorrida.

2 Todos os erros humanos são impaciência, uma ruptura precoce do que é metódico, uma aparente implantação daquilo que é aparente.

3 Existem dois pecados capitais, dos quais todos os outros derivam: impaciência e indolência. Por causa da impaciência os homens foram expulsos do paraíso, por causa da indolência eles não voltam. Mas talvez só exista um pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência eles foram expulsos, por causa dela eles não voltam.

4 Muitas sombras dos que morreram ocupam-se apenas em lamber as ondas do rio dos mortos, porque ele corre a partir de nós e ainda tem o gosto salgado dos nossos mares. O rio então recua de nojo, flui em sentido contrário e atira os mortos de volta à vida. Estes, porém, estão felizes, cantam canções de graça e acariciam o fluxo indignado.

5 A partir de certo ponto não há mais retorno. É este o ponto que tem de ser alcançado.

6 O momento decisivo da evolução humana é permanente. Por isso estão certos os movimentos revolucionários do espírito que declaram nulo tudo o que veio antes, pois nada ainda aconteceu.

7 Um dos meios de sedução mais eficazes do mal é a exortação à luta. É como a luta com mulheres, que termina na cama.

8-9 Uma cadela de mau cheiro, que pariu numerosos filhotes, em parte já apodrecendo, mas que na minha infância era tudo para mim, que me segue fielmente o tempo todo, em quem não consigo bater, mas da qual, mesmo evitando seu hálito, eu me desvio indo para trás e que, se não me decido por alguma outra coisa, irá me empurrar até o canto já visível da parede, para se decompor totalmente em cima de mim e comigo – é uma honra que me dá? –, a carne purulenta e cheia de vermes da sua língua em minha mão.

10 A. está muito cheio de si, julga-se bem adiantado na bondade, uma vez que – evidentemente como um objeto cada vez mais sedutor –- se sente exposto a um número sempre maior de seduções, que até então lhe eram totalmente desconhecidas. A explicação certa, porém, é que nele se instalou um grande demônio e uma infinidade de outros, menores, vem vindo para servir ao maior.

11-12 Diferença das visões que se pode ter, por exemplo, de uma maçã: a visão do menino que precisa esticar o pescoço para ainda ver a maçã sobre o tampo da mesa e a do dono da casa, que pega a maçã e a estende livremente ao companheiro de mesa.

13 Um primeiro sinal do início do conhecimento é o desejo de morrer. Esta vida parece insuportável, a outra, inatingível. A pessoa já não se envergonha mais de querer mor­rer; pede para ser levada da velha cela que ela odeia para uma nova, que só então aprenderá a odiar. Persiste um resíduo de fé durante a transferência se o senhor do lugar casualmente passar pelo corredor, avistar o prisioneiro e disser: “Este homem vocês não podem prender outra vez. Ele vai para a minha casa.”

14 Se você estivesse cruzando uma planície com a firme intenção de ir em frente, mas andasse para trás, isso então seria desesperador; mas, uma vez que está escalando uma encosta íngreme, tão íngreme quanto você próprio visto de baixo, os passos para trás podem ser causados apenas pela condição do terreno e você não precisa se desesperar.

15 Como uma trilha no outono: mal foi varrida, cobre-se outra vez de folhas secas.

16 Uma gaiola saiu à procura de um pássaro.

17 Neste lugar eu ainda nunca estive: a respiração é diferente e, mais ofuscante que o sol, brilha ao seu lado uma estrela.

18 Se tivesse sido possível construir a torre de Babel sem escalá-la até o topo, ela teria sido permitida.

19 Não deixe que o mal o faça acreditar que você poderia guardar segredos diante dele.

2 respostas para Os Aforismos reunidos de Franz Kafka

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